a acupuntura e o vodu

Na época em que resolvi que o que queria da vida era ser acupunturista, essa não era uma decisão tão simples assim. Pelo simples fato que essa profissão, na prática, nem mesmo existia enquanto possibilidade no Brasil. Acupuntura, na Belo Horizonte de então, pouco mais era que um curandeirismo de origem chinesa intimamente aparentado com o vodu. É claro que meus pais só podiam mesmo era ficar com o pé atrás:
- Tudo bem, meu filho, qualquer que seja sua escolha nós te apoiaremos, mas termina o seu curso de Comunicação Social, ok? Ter um diploma é importante!
Pelo curso em si, acho que o diploma não me valeu de muita coisa, não. Mas fiz boas amizades na faculdade, que se mantém firmes até hoje. E o que é que Comunicação Social tinha a ver comigo? Eu achava que ia ser escritor. Tinha sido criado dentro de uma biblioteca por minha mãe, professora de literatura, e diga-se de passagem achei ótimo, pois desde pequenino sempre adorei ler. Isso fez com que minha percepção e compreensão do Universo fosse naturalmente permeada pela palavra escrita; e daí para começar a escrever foi um pulo.
De tanto ler, eu sabia, intuitivamente, como redigir uma frase para que esta estivesse correta gramaticalmente, mas não tinha a menor paciência para aprender as regras que demonstravam isso de acordo com os cânones da teoria acadêmica. Foi isso que me afastou de fazer o curso de Letras. A Comunicação Social, e dentro dela o jornalismo, me pareceram mais próximos de uma prática da escrita que de uma investigação dos ditames filosóficos que a sustentavam. Eu queria era ação! Exercitar meus músculos criativos!
Mas encontrei foram manuais de como escrever corretamente dentro da linguagem jornalística. Frustração! Mudei pra outra opção dentro da Comunicação Social, que era a Publicidade. Nessa durei só um semestre, a imposição de que o texto tinha de ser feito para vender também engessava demais a criatividade pro meu gosto. Terceira tentativa, Radialismo. Foi onde finalmente encontrei um mínimo de espaço para que meu texto pudesse respirar. Achei que a vida ia ser aquilo ali mesmo. Só que aí a Medicina Chinesa entrou com força total em minha vida, e felizmente não tive tempo de perceber que, para além dos exercícios e brincadeiras que fazia na sala de aula e nos estúdios da faculdade, no mercado de trabalho lá fora a criatividade no Radialismo também era vassala da capacidade do texto de vender ou não o peixe do e para o cliente.
Na verdade esse blog é um retorno às minhas origens, pois desde então minha produção escrita havia caído para quase zero. Na época de minha graduação eu já trabalhava como assistente de Melão no consultório. Peguei o canudo, mostrei para meus pais:
- Aqui está o diploma. Vou colocar nessa gaveta. Agora com licença, estou atrasado para ir pro consultório.

0 Comments:
Post a Comment
<< Home