o mapa não é o território

Um de meus colegas do curso de massagem terapêutica era médico, e não parecia nada confortável de estar ali. Ele não perdia uma oportunidade de questionar Melão a respeito da exigência daquela formação em massagem para ser aceito como aluno no curso de acupuntura. Um dia Melão se estendeu um pouco mais na resposta:
- Não se sabe ao certo como a acupuntura surgiu, pois a época de sua sistematização é anterior ao aparecimento da escrita. Existem as mais variadas teorias místicas a respeito disso, como por exemplo a que fala que a acupuntura foi ensinada aos chineses por seres que viajavam em submarinos vindos da Atlântida, pegando carona na lenda chinesa de que uma tartaruga surgiu no rio Amarelo, com os diagramas da acupuntura desenhados em seu casco.
- Tem aquela outra também que fala de um grande guerreiro que perdia todas as suas batalhas contra uma terrível dor de cabeça, e que um dia foi flechado no calcanhar - no ponto que hoje conhecemos como Kunlun - e para sempre foi curado, lembrou um colega. Dizem inclusive que a tal história do calcanhar de Aquiles começou assim...
- Sim, as lendas são muitas. Mas para mim é bastante óbvio que a coisa toda começou com massagem. Vocês perceberão isso com seus pacientes: alguns pontos não doem ao ser pressionados, outros doem bastante, e alguns na hora que apertamos o paciente reclama: "Puxa, aí parece que você está enfiando uma agulha quando aperta!" Eu penso que o chinês nessa hora se perguntou: "E se eu enfiasse mesmo uma agulha, que será que aconteceria?"
Aos poucos, os chineses foram percebendo que, trabalhando esses pontos mais reativos, sinais e sintomas que se manifestavam às vezes em partes do corpo muito distantes daquelas que estavam sendo pressionadas ou agulhadas eram harmonizados. Para os chineses de então, certamente isso não chegou a ser uma grande surpresa, pois ainda não haviam começado a imaginar o corpo humano como sendo composto de partes separadas sem nenhuma ligação umas com as outras. Na acupuntura, como fruto que ela é dessa percepção de que nada existe separado, não é possível existir um acupunturista que seja, por exemplo, especialista só em ortopedia, ou só em ginecologia, etc. Nela, ou você compreendeu o todo do quadro, e trata os distúrbios usando o raciocínio holístico próprio a ela, ou está sendo um mero enfiador de agulhas; acupuntura, mesmo, não estará fazendo.
Aí está uma dificuldade a mais que um médico alopata enfrentará para se tornar um bom acupunturista. No Ocidente, buscamos compreender um fenômeno separando-o em partes cada vez mais infinitesimais. Já os chineses buscam compreender esse mesmo fenômeno observando em que contexto mais amplo, em que arquétipo ele se encaixa.
Em meus anos de prática, já vi os quatro tipos de profissionais: os médicos alopatas que eram excelentes acupunturistas, os médicos alopatas que eram péssimos acupunturistas, os acupunturistas que não eram médicos alopatas e que eram excelentes acupunturistas, e os acupunturistas que nãos eram médicos alopatas que eram péssimos acupunturistas. E o que fazia com que todos eles fossem bons ou maus acupunturistas? Era o fato de conseguirem raciocinar a acupuntura a partir do ângulo de visão do Universo com que ela foi sistematizada.
Posso dizer que uns oitenta por cento de meu trabalho como professor será fazer com que vocês deixem de lado suas maneiras ocidentais de raciocinar e comecem a ver o Universo como um chinês faria. Esse não é um problema que só um aluno médico alopata terá, afinal essa visão separatista da medicina ocidental nada mais é do que um reflexo natural da maneira como o Ocidente inteiro culturalmente aprendeu a ver o Universo. Mas costuma ser mais difícil para um aluno médico alopata se desapegar de sua visão a respeito de como as coisas funcionam, e finalmente conseguir efetivamente mergulhar nessa nova maneira de perceber o milagre da existência que a filosofia e a medicina chinesas nos oferecem. Por isso, inclusive, é que esta primeira parte da massagem é obrigatória para todos os alunos que decidem aprender Medicina Chinesa comigo, mas é mais obrigatória ainda para meus alunos que, como você, são médicos alopatas. A casca que temos de quebrar costuma ser maior em vocês. Seu desafio é maior. Mas isso pode fazer com que a coisa seja até mais interessante para você. Dependerá apenas do seu desapego.
Não estou dizendo aqui de maneira nenhuma que a Medicina Chinesa seja melhor que a Ocidental em matéria de explicar como o Universo funciona. Há um conceito que é fundamental que vocês compreendam: o mapa não é o território. Tanto a Medicina Chinesa quanto a Ocidental são apenas interpretações, pontos de vista a partir dos quais se descreve a paisagem. O que esperamos de um mapa? Que ele nos leve até o destino em que desejamos chegar. No caso, o destino para o qual queremos ir se chama saúde. Se nos leva até lá com um mínimo de percalços, o mapa é bom. O que não dá é pra tentar raciocinar o mapa da acupuntura usando as legendas que tem no mapa da alopatia. Muitos médicos ocidentais já tentaram fazê-lo; e no final acabavam abandonando o mapa da Medicina Chinesa, reclamando que ele não prestava. E é justamente para que você não corra o risco de cair nesse tipo de engano que lhe digo: não, você não pode pular esse módulo de massagem e entrar direto na parte de acupuntura do curso.
Se isto lhe serve de consolo, você perceberá que o corpo de seu paciente, ao ser massageado, lhe contará informações preciosas a respeito do que precisa ser feito para harmonizar os distúrbios dos quais esteja padecendo; além disso, para se fazer um bom diagnóstico em Medicina Chinesa, como por exemplo pela palpação dos pulsos, dos pontos de assentimento nas costas ou dos pontos de alarme no abdomen, ter o tato bem apurado é fundamental, e trabalhar com massagem é uma das melhores maneiras de desenvolvê-lo. Então, podemos voltar à aula?

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