bem viver

Este é o blog do Centro Terapêutico Bem Viver, de Tiradentes, São João Del Rei e Belo Horizonte, MG, onde os terapeutas Idalmo Duarte Júnior e Marisol de Oliveira Jotta conversarão com você a respeito de Medicina Tradicional Chinesa, Psicologia, e sobre o que poderíamos chamar de "caminho da consciência" - estarmos aqui agora para ganharmos nosso presente. As fotos são de nossa sede em Tiradentes. Um grande abraço!

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Location: Tiradentes, MG, Brazil

Acupunturista, massoterapeuta, e alguém que busca fazer da vida "esta é uma empresa optante pelo simples"

Saturday, June 30, 2007

lei da atração


O conhecimento que Melão passava para nós durante as aulas de Medicina Tradicional Chinesa me fascinava tanto que eu simplesmente não conseguia ficar sem pensar nos assunto abordado durante a aula o resto da semana todo. Estava obcecado como jamais havia estado em relação a nenhuma outra coisa com que tivesse me envolvido em toda minha vida. Pedi permissão para Melão, e comecei a gravar as aulas para depois transcrever e, assim, ter certeza de que não iria perder nem um detalhe da matéria que estava sendo passada.


Melão tinha um método de ensino realmente ímpar: ele não seguia para frente com a teoria enquanto todos os alunos da turma não tivessem compreendido a matéria que estava sendo passada - não ao nível intelectual, mas com o coração. Enquanto nossa maneira de enxergar o Universo não tivesse sido modificada pela nova abordagem que ele propunha, ele continuava voltando ao mesmo assunto por novos e novos ângulos, até que a chave virasse para cada um de nós.


Hoje percebo o quanto tenho a agradecer a ele por ter usado essa estratégia conosco; sempre era possível aprofundar mais e mais a compreensão inicial que eu tinha das questões que ele ia apresentando. Não fossem meus colegas, certamente eu teria seguido em frente de maneira atabalhoada e sem ter compreendido realmente a matéria em algum ponto. Mas na época essa compreensão a respeito do tempo do movimento estava longe, muito longe... eu simplesmente tinha vontade de esganar vários de meus colegas. Todo mundo ali era muito interessado, atento e estava fascinado numa proporção muito semelhante à minha com o que estava sendo passado, mas poucos tinham a disponibilidade - ou a obsessão - que eu tinha para ficar pensando naquilo o dia inteiro. E assim, do alto de meu pedestal eu só podia mesmo era julgar que a ficha para alguns ali demorava demais a cair. Melão não perdia o bom humor, voltava ao assunto por um novo caminho, com uma nova abordagem, sem pressa, até a semente germinar para todos nós. Mas eu quase não conseguia me aguentar de ansiedade por informações novas.


Foi por isso que resolvi montar o grupo de estudos com meus outros colegas. Eu gravava as aulas, transcrevia, fazia esquemas, resumia, criava lembretes, e dava minhas aulinhas para o resto da turma, na esperança de conseguir que o processo se acelerasse um pouco. Funcionou, Melão fazia suas perguntinhas capciosas de praxe para ver se todos nós já estávamos cobra criada na matéria, ficava satisfeito com o resultado que lia em nós, e então seguia em frente com uma frequência maior. Muitas vezes nesses momentos eu simplesmente não conseguia me conter, e cheguei mesmo a rir sozinho em plena aula quando Melão apresentava para nós um novo detalhe dessa paisagem chamada Medicina Tradicional Chinesa.


Uma coisa que acontecia nas aulas, e que muito me intrigava, era o fato de às vezes ele parar quieto, concentrado, sem falar nada, e em alguns desses momentos uma nova compreensão do assunto surgir em minha cabeça, como se viesse por um meio que não eram as palavras. Eu não sabia se era apenas impressão minha, mas aconteceu tantas vezes que um dia criei coragem e, mesmo me achando um pouco ridículo, perguntei a respeito para Melão.


- Você apenas teve um belo exemplo de como o Universo funciona: é tudo uma questão de sintonia. Com seu esforço, você se colocou no lugar, na vibração necessária para que o conhecimento chegasse até você. Nós funcionamos como um rádio: com nossos atos, pensamentos e sentimentos sintonizamos uma estação, onde tocam as músicas que tem a ver com a vibração desses pensamentos, sentimentos e atos. Preste atenção nas músicas que vêm para você, elas lhe contam onde está sintonizado. Com você devotando sua vida da maneira que está em receber mais conhecimento sobre a Medicina Tradicional Chinesa, é óbvio que esse tipo de coisa aconteceria mesmo com você. Por falar nisso, estou precisando de um assistente aqui no consultório, para manter tudo organizado para mim, e em troca eu deixaria essa pessoa acompanhar os meus atendimentos. Está interessado?

Wednesday, June 27, 2007

cuide de seu patrimônio


Ao produzir um sintoma, nosso corpo não está querendo que a gente vá ao médico em busca da pílula da felicidade que irá sedar aquele sinal, ou à rezadeira pra tirar o "encosto", nem mesmo ao acupunturista pra tomar umas espetadas e harmonizar o desequilíbrio.


O que o corpo está pedindo é por uma mudança na nossa maneira de tocar o barco. Tudo que ele quer é uma chance para poder desabrochar para nós todos os tesouros de percepção, sensibilidade, interação e consciência que tem para nos presentear. Mas, para que possa fazê-lo, ele precisa das condições adequadas de temperatura e pressão: precisa que a gente pare de se sacanear com alimentação ruim - lembrando que alimentação é tudo aquilo que absorvemos do mundo ao nosso redor com nossos cinco sentidos. Precisa que a gente pare de se atrapalhar com crenças disfuncionais e limitantes (tipo "só acontece coisa errada comigo", "estamos em um vale de lágrimas", etc.). Precisa que a gente pare de ficar em má postura - física, ou em relação à vida.


Todo terapeuta que merece esta denominação deveria ter como objetivo sagrado criar o mais rapidamente possível a independência de seus pacientes. Seu papel não é ser uma muleta para eles, e sim fortalecer suas pernas para que possam caminhar bem sozinhos. Falando de outra maneira, o bom terapeuta deve ser como uma placa de sinalização na beirada da estrada que diz coisas do tipo: "atenção à paisagem do lado de fora e do lado de dentro".


É fato que com acupuntura é possível reequilibrar uma vida de chutação de balde. Mas se o paciente não mexe nos hábitos que estão criando o desequilíbrio, e depois da sessão volta para seu cotidiano sem fazer nenhuma mudança, a tendência é o sintoma voltar - ou o corpo arrumar uma outra maneira, um outro sintoma, para manifestar sua insatisfação ao ser maltratado. E assim nasce o paciente-bumerangue, que o terapeuta harmoniza, manda para o mundo e já-já está voltando de novo. Afinal, infelizmente o corpo não tem como dar uma palmadinha em nosso ombro e dizer: "pô, caboclo, até que é bacana esse lance de acupuntura, mas pega leve, cuida direito do seu templo sagrado, do seu patrimônio! Senão eu vou ter de arrumar uma outra maneira de encher o seu saco..."


A grande maioria das pessoas não está interessada em saber disso ao procurar ajuda para resolver seus padecimentos, por não quererem, ou por acharem que não vão conseguir mudar. Não estão interessados em trilhar um caminho de consciência - com si em si há. Apenas fazem igual está todo mundo fazendo: querendo só o pileque, sem a ressaca, como se isso fosse possível. Acupuntura tem uma vantagem com relação à medicina ocidental nesse sentido, pois sua eficácia se firma não em sedar o sintoma, como fazem os remédios da alopatia, e sim em harmonizar o fluxo de energia vital. Ela funciona de maneira semelhante ao spalla, aquele violinista que antes do concerto começar "dá a nota" para que os outros músicos afinem seus instrumentos. O paciente sai do consultório com um novo parâmetro: "Ah, então é assim que esse instrumento que sou eu foi feito para soar. Nem lembrava mais... Que delícia!" Quanto mais branca estiver a folha de papel, mais fácil será ver nela as impressões que um estilo de vida, bom ou ruim, vai marcando. Aí, quando o paciente volta aos velhos hábitos e "desafina" de novo, tem agora um bom parâmetro para perceber - se estiver atento e sem interesse em tampar o sol com a peneira - o que é que faz a mistura desandar. E aí pode fazer uma escolha com consciência.



Thursday, June 21, 2007

faca de ponta


Após o término de meu primeiro curso de massagem, eu estava eufórico com tudo que aprendera, e me sentia montado na carne seca. "Agora a harmonia e o equilíbrio estão em minhas mãos! Com elas serei capaz de consertar o mundo!"

Na época eu praticava capoeira. Meu grupo ia fazer uma visita a uma outra academia. Fomos bem recebidos, e logo depois das rasgações de seda de praxe, iniciamos uma roda de confraternização. Tudo começou vagarosamente, no ritmo cadenciado da capoeira de angola, os jogadores interagindo no centro da roda em movimentos lentos e estudados. Logo a velocidade foi subindo. Ao final, num paroxismo frenético, mal se viam os pés e braços dos jogadores rodando no jogo. E nessa hora estava todo mundo louco pra jogar mais um pouquinho, igual num final de festa em que todos se apressam para ver se conseguem pegar mais alguns salgadinhos. Entrei no jogo, dei duas gingadas e um fominha já comprou meu lugar: com toda delicadeza, colocou em meu caminho o que se chama na capoeira de "faca de ponta", o que em bom português significa que o cara entrou na minha frente se protegendo com o cotovelo. Eu estava no meio de um rabo de arraia, movimento em que se lança o braço em círculo a fim de ganhar impulso para executar um giro com a perna. E, no meio desse carnaval todo, as costas de minha mão e o cotovelo do sujeito eventualmente acabaram por se encontrar.

Lembro do impacto. O choque repercutiu por toda a trajetória do nervo no meu braço esquerdo. Saí da roda ainda girando pra conseguir brecar a tremenda velocidade em que estava. A turma batia palmas para Cacá, nosso professor, mestre visitante: a roda tinha terminado. Com minha mão estupidamente servindo de grand-finale - embora na rapidez com que a coisa toda acontecera ninguém (além de, dolorosamente, eu mesmo) tivesse percebido o acidente. Minha namorada na época me chamou pra participar:

- Bate palma pro seu mestre também, ô!

Percebi sua surpresa ao ver minha cara branca de susto e dor:

- Espera aí, que eu acho que quebrei a mão.

Raio-x, gesso, viagem pra Pernambuco na sequência, ainda engessado, entrando no mar com o braço pra cima parecendo a Estátua da Liberdade... Puxa vida, bem que podia ter sido um pouco mais light minha lição de que a harmonia e o equilíbrio deveriam, idealmente, não ser dependentes nem mesmo de massagens milagrosas feitas por terapeutas altamente qualificados!

Monday, June 18, 2007

frases d'efeito

Para viver no mundo de hoje, atenção é necessário.
A tensão, não.

Friday, June 15, 2007

o mapa não é o território



Um de meus colegas do curso de massagem terapêutica era médico, e não parecia nada confortável de estar ali. Ele não perdia uma oportunidade de questionar Melão a respeito da exigência daquela formação em massagem para ser aceito como aluno no curso de acupuntura. Um dia Melão se estendeu um pouco mais na resposta:


- Não se sabe ao certo como a acupuntura surgiu, pois a época de sua sistematização é anterior ao aparecimento da escrita. Existem as mais variadas teorias místicas a respeito disso, como por exemplo a que fala que a acupuntura foi ensinada aos chineses por seres que viajavam em submarinos vindos da Atlântida, pegando carona na lenda chinesa de que uma tartaruga surgiu no rio Amarelo, com os diagramas da acupuntura desenhados em seu casco.


- Tem aquela outra também que fala de um grande guerreiro que perdia todas as suas batalhas contra uma terrível dor de cabeça, e que um dia foi flechado no calcanhar - no ponto que hoje conhecemos como Kunlun - e para sempre foi curado, lembrou um colega. Dizem inclusive que a tal história do calcanhar de Aquiles começou assim...


- Sim, as lendas são muitas. Mas para mim é bastante óbvio que a coisa toda começou com massagem. Vocês perceberão isso com seus pacientes: alguns pontos não doem ao ser pressionados, outros doem bastante, e alguns na hora que apertamos o paciente reclama: "Puxa, aí parece que você está enfiando uma agulha quando aperta!" Eu penso que o chinês nessa hora se perguntou: "E se eu enfiasse mesmo uma agulha, que será que aconteceria?"


Aos poucos, os chineses foram percebendo que, trabalhando esses pontos mais reativos, sinais e sintomas que se manifestavam às vezes em partes do corpo muito distantes daquelas que estavam sendo pressionadas ou agulhadas eram harmonizados. Para os chineses de então, certamente isso não chegou a ser uma grande surpresa, pois ainda não haviam começado a imaginar o corpo humano como sendo composto de partes separadas sem nenhuma ligação umas com as outras. Na acupuntura, como fruto que ela é dessa percepção de que nada existe separado, não é possível existir um acupunturista que seja, por exemplo, especialista só em ortopedia, ou só em ginecologia, etc. Nela, ou você compreendeu o todo do quadro, e trata os distúrbios usando o raciocínio holístico próprio a ela, ou está sendo um mero enfiador de agulhas; acupuntura, mesmo, não estará fazendo.


Aí está uma dificuldade a mais que um médico alopata enfrentará para se tornar um bom acupunturista. No Ocidente, buscamos compreender um fenômeno separando-o em partes cada vez mais infinitesimais. Já os chineses buscam compreender esse mesmo fenômeno observando em que contexto mais amplo, em que arquétipo ele se encaixa.


Em meus anos de prática, já vi os quatro tipos de profissionais: os médicos alopatas que eram excelentes acupunturistas, os médicos alopatas que eram péssimos acupunturistas, os acupunturistas que não eram médicos alopatas e que eram excelentes acupunturistas, e os acupunturistas que nãos eram médicos alopatas que eram péssimos acupunturistas. E o que fazia com que todos eles fossem bons ou maus acupunturistas? Era o fato de conseguirem raciocinar a acupuntura a partir do ângulo de visão do Universo com que ela foi sistematizada.


Posso dizer que uns oitenta por cento de meu trabalho como professor será fazer com que vocês deixem de lado suas maneiras ocidentais de raciocinar e comecem a ver o Universo como um chinês faria. Esse não é um problema que só um aluno médico alopata terá, afinal essa visão separatista da medicina ocidental nada mais é do que um reflexo natural da maneira como o Ocidente inteiro culturalmente aprendeu a ver o Universo. Mas costuma ser mais difícil para um aluno médico alopata se desapegar de sua visão a respeito de como as coisas funcionam, e finalmente conseguir efetivamente mergulhar nessa nova maneira de perceber o milagre da existência que a filosofia e a medicina chinesas nos oferecem. Por isso, inclusive, é que esta primeira parte da massagem é obrigatória para todos os alunos que decidem aprender Medicina Chinesa comigo, mas é mais obrigatória ainda para meus alunos que, como você, são médicos alopatas. A casca que temos de quebrar costuma ser maior em vocês. Seu desafio é maior. Mas isso pode fazer com que a coisa seja até mais interessante para você. Dependerá apenas do seu desapego.
Não estou dizendo aqui de maneira nenhuma que a Medicina Chinesa seja melhor que a Ocidental em matéria de explicar como o Universo funciona. Há um conceito que é fundamental que vocês compreendam: o mapa não é o território. Tanto a Medicina Chinesa quanto a Ocidental são apenas interpretações, pontos de vista a partir dos quais se descreve a paisagem. O que esperamos de um mapa? Que ele nos leve até o destino em que desejamos chegar. No caso, o destino para o qual queremos ir se chama saúde. Se nos leva até lá com um mínimo de percalços, o mapa é bom. O que não dá é pra tentar raciocinar o mapa da acupuntura usando as legendas que tem no mapa da alopatia. Muitos médicos ocidentais já tentaram fazê-lo; e no final acabavam abandonando o mapa da Medicina Chinesa, reclamando que ele não prestava. E é justamente para que você não corra o risco de cair nesse tipo de engano que lhe digo: não, você não pode pular esse módulo de massagem e entrar direto na parte de acupuntura do curso.
Se isto lhe serve de consolo, você perceberá que o corpo de seu paciente, ao ser massageado, lhe contará informações preciosas a respeito do que precisa ser feito para harmonizar os distúrbios dos quais esteja padecendo; além disso, para se fazer um bom diagnóstico em Medicina Chinesa, como por exemplo pela palpação dos pulsos, dos pontos de assentimento nas costas ou dos pontos de alarme no abdomen, ter o tato bem apurado é fundamental, e trabalhar com massagem é uma das melhores maneiras de desenvolvê-lo. Então, podemos voltar à aula?

Thursday, June 14, 2007

festival de coerência


Quando comecei a trabalhar com Medicina Chinesa, volta e meia um paciente chegava com essa história:



- Idalmo, esta semana fui no doutor Fulano. Aí falei que estou fazendo acupuntura e ele disse que isso é uma picaretagem, puro charlatanismo, e que estou jogando meu dinheiro fora. Mas eu me sinto tão bem com nossas sessões... Estou pensando em continuar, é só eu não contar pra ele, né?



Foram anos assim. Mas um dia percebi que isso estava mudando:



- Idalmo, fui do doutor Sicrano, falei pra ele que estava fazendo acupuntura...



- Já sei, ele disse que esse negócio de acupuntura é uma picaretagem, que eu sou um charlatão...



- Não, ele disse que acupuntura é ótimo, funciona mesmo... E que só médico alopata pode trabalhar com acupuntura!



a acupuntura e o vodu


Na época em que resolvi que o que queria da vida era ser acupunturista, essa não era uma decisão tão simples assim. Pelo simples fato que essa profissão, na prática, nem mesmo existia enquanto possibilidade no Brasil. Acupuntura, na Belo Horizonte de então, pouco mais era que um curandeirismo de origem chinesa intimamente aparentado com o vodu. É claro que meus pais só podiam mesmo era ficar com o pé atrás:

- Tudo bem, meu filho, qualquer que seja sua escolha nós te apoiaremos, mas termina o seu curso de Comunicação Social, ok? Ter um diploma é importante!

Pelo curso em si, acho que o diploma não me valeu de muita coisa, não. Mas fiz boas amizades na faculdade, que se mantém firmes até hoje. E o que é que Comunicação Social tinha a ver comigo? Eu achava que ia ser escritor. Tinha sido criado dentro de uma biblioteca por minha mãe, professora de literatura, e diga-se de passagem achei ótimo, pois desde pequenino sempre adorei ler. Isso fez com que minha percepção e compreensão do Universo fosse naturalmente permeada pela palavra escrita; e daí para começar a escrever foi um pulo.

De tanto ler, eu sabia, intuitivamente, como redigir uma frase para que esta estivesse correta gramaticalmente, mas não tinha a menor paciência para aprender as regras que demonstravam isso de acordo com os cânones da teoria acadêmica. Foi isso que me afastou de fazer o curso de Letras. A Comunicação Social, e dentro dela o jornalismo, me pareceram mais próximos de uma prática da escrita que de uma investigação dos ditames filosóficos que a sustentavam. Eu queria era ação! Exercitar meus músculos criativos!

Mas encontrei foram manuais de como escrever corretamente dentro da linguagem jornalística. Frustração! Mudei pra outra opção dentro da Comunicação Social, que era a Publicidade. Nessa durei só um semestre, a imposição de que o texto tinha de ser feito para vender também engessava demais a criatividade pro meu gosto. Terceira tentativa, Radialismo. Foi onde finalmente encontrei um mínimo de espaço para que meu texto pudesse respirar. Achei que a vida ia ser aquilo ali mesmo. Só que aí a Medicina Chinesa entrou com força total em minha vida, e felizmente não tive tempo de perceber que, para além dos exercícios e brincadeiras que fazia na sala de aula e nos estúdios da faculdade, no mercado de trabalho lá fora a criatividade no Radialismo também era vassala da capacidade do texto de vender ou não o peixe do e para o cliente.

Na verdade esse blog é um retorno às minhas origens, pois desde então minha produção escrita havia caído para quase zero. Na época de minha graduação eu já trabalhava como assistente de Melão no consultório. Peguei o canudo, mostrei para meus pais:

- Aqui está o diploma. Vou colocar nessa gaveta. Agora com licença, estou atrasado para ir pro consultório.

a primeira aula


Na primeira aula do curso avançado de shiatsu e bases da medicina chinesa, depois que todos nos apresentamos, chegou a vez dele falar. Vânia, a outra professora, eu já conhecia do curso básico de shiatsu que fizera com ela no ano anterior. Melão eu nunca havia visto antes, e achei inclusive que era mais um dos estudantes do curso, apesar de ter me chamado a atenção o fato dele estar sentado em postura de meditação. Ele nos cumprimentou a todos, apresentou-se e começou a explicar qual seria a matéria que nos ensinaria:

- A Medicina Chinesa é uma sistematização dos ciclos da Natureza. É a memória viva de um tempo em que o homem ainda não havia esquecido que fazia parte desse todo chamado Universo, e que os ciclos que aconteciam no ambiente ao redor se repetiam dentro dele próprio.

"Nesse tempo o homem sabia que nossa energia vital é como um rio, que fluindo de maneira harmoniosa por entre os montes e vales, nos proporciona saúde física, mental, emocional e espiritual".

"Ele sabia que afastar-se dos ciclos naturais gerava bloqueios no fluxo de energia vital, como um represamento no rio; e que essa era a causa de todas as doenças. Os homens daquele tempo, então, devotavam todos os seus esforços e capacidade de observação para se adequarem ao fluxo. Para serem um com o Universo ao redor deles. Até que, finalmente, após milênios de observação, conseguiram sistematizar o modo como se dá o fluir desses ciclos; como eles aconteciam no decorrer do dia, das estações do ano, da vida de uma pessoa. E será isto que ensinarei para vocês ao longo deste curso".

A medida que Melão ia falando, uma estranha emoção foi se apoderando de mim. Eu não tinha, então, subsídios para compreender a razão pela qual sentia aquele misto de vontade de chorar, rir, correr, dar cambalhotas... Ora, eu nem tinha noção de que estava procurando, e de repente encontrara aquilo com que gostaria de trabalhar pelo resto de minha vida. A estranha emoção em meu peito nada mais era que meu espírito dizendo, pleno de felicidade: "É assim que eu sou!"

Monday, June 11, 2007

zona de confronto


Só lá no fim da sua zona de conforto começa a vida

E você nem se sente tão confortável assim.

Fecha as mãos, o coração, os olhos, trinca os dentes

Trava inteira e espera, "um dia vai passar".

E enquanto isso,

O velho morre de seguro.

*



Corra atrás do seu sonho, nega

Siga o que faz seu olho brilhar

A idéia mais bonita de si mesma

A vida é curta,

Já vai acabar...

minha primeira cobaia


Finalmente chegara o dia em que Melão nos ensinaria a inserir as agulhas de acupuntura. Eu estava exultante:

- Oba! Agora vou sair por aí espetando todo mundo!

Melão me parou:

- Espera aí, Idalmo, que não é bem assim ainda não. Agora que vocês aprenderam a inserir as agulhas, é importante que passem os próximos seis meses colocando-as apenas em vocês mesmos. É fundamental que compreendam exatamente o que é acertar... (pausa dramática) ou errar um ponto de acupuntura. E não é justo que para isso suas cobaias sejam outros que não vocês, não é? Desconfiem dos acupunturistas que não façam acupuntura em si mesmos. Seus primeiros clientes devem ser vocês, é óbvio; se não comprarem seus próprios produtos, percebendo que eles ainda não estão tão sólidos assim, como podem sequer pensar em vendê-los para os outros?

um terapeuta tão bom quanto você


Era o dia da última aula do curso dedicada ao aprendizado da massagem terapêutica. A técnica estava toda fresca em minha mente, mas ainda assim eu me sentia inseguro quanto à minha competência enquanto massagista. Perguntei para Melão:
- Será que algum dia conseguirei ser um terapeuta tão bom quanto você?
Ele riu:
- Espero que algum dia você consiga ser um terapeuta tão bom quanto você!
Ele se voltou para a turma:
- Tudo o que eu podia ensinar para vocês em matéria de massagem terapêutica está passado. Existem técnicas, percepções e intuições que são mais sutis, e só com o tempo e a prática vocês irão compreender. Idalmo está manifestando a insegurança dele, sentindo-se desconfortável, achando que ela é algo ruim. Mas a insegurança pode ser algo de muito produtivo; basta que ele a use como estímulo para jamais parar de estudar, para estar sempre buscando se aprimorar, para jamais permitir-se estagnar na ilusão de que já aprendeu tudo o que havia para ser aprendido; e para atuar em cada massagem como se aquela fosse a primeira vez que se está adentrando em um novo e desconhecido território, cheio de descobertas a serem feitas - o que, diga-se de passagem, nada mais é do que a mais pura expressão da verdade, mesmo que já tenham feito centenas de massagens nessa mesma pessoa. Usem suas inseguranças para buscar estar sempre 100% ali, presentes. O dia em que vocês acharem que sabem tudo, podem ter certeza que em breve estará para chegar em seus consultórios o paciente-enigma-insolúvel que irá jogar por terra a auto-importância de vocês.
Dentro de três anos eu quero testar suas massagens; se estiverem fazendo algo diferente do que eu lhes ensinei, vou puxar a orelha de vocês. E dentro de dez anos quero testá-las de novo; se ainda estiverem fazendo exatamente o que ensinei, vou puxar as duas orelhas. E farei isso porque, primeiro, vocês devem compreender as técnicas com os seus corações, estarem aptos a executá-as sem nem mesmo terem de pensar para fazê-lo. Esse é o ponto em que elas se tornam estensões de seus próprios seres, serão naturais para vocês como caminhar, falar, pensar, ler. E esse é o momento a partir do qual vocês devem permitir que a intuição comece a rolar. Por si sós começarão a descobrir coisas novas, novos usos, novas técnicas para harmonizar a energia de seus pacientes. Será o momento de encontrar o sotaque pessoal da massagem de cada um de vocês. Todo aquele que trabalha com cura e não está inserido em uma escola tão rígida que não permita a expressão da individualidade de cada um chega a esse momento. Nessa hora, por uma questão de marketing ou de arrogância, muitos gostam de dar um nome novo para a massagem que praticam; pessoalmente acho isso uma bobagem - é apenas a sua maneira pessoal de contar a mesma história. Chegar a esse ponto é natural e desejável, mas primeiro é necessário ser um tanto inflexível enquanto a técnica vai entranhando; para que seu estilo pessoal não se torne apenas uma viagem na maionese sem fundamento.
Pois bem. Os japoneses dizem que uma pessoa começa a envelhecer quando não quer mais aprender. O curso acabou, mas o aprendizado de vocês, felizmente, não. Mãos à obra!

trair a si mesmo


Trair a si mesmo também é traição. Talvez a maior delas.
- Como posso saber se estou traindo a mim mesmo?
- Simples. Você terá traído a si mesmo todas as vezes que criar as condições para um "ah, mas e se em tal ocasião assim assim eu tivesse..." germinar em sua vida.

Monday, June 04, 2007

expansão


Eu não me identifico mais
Não rotulo
Não tenho limites.
Não vou trazer de volta o que está disperso:
Vou expandir até lá o resto,
Sem camisa de força...
Eu vejo agora o medo, contraindo
E abro mão.
Tenho coisa mais interessante pra escolher:
Colher a semente do meu novo ser.