muletas e amuletos
Paulinho Muleta era professor na Universidade Federal de Minas Gerais, na época em que estudei lá. Tinha esse apelido porque, na infância, adoecera de pólio e suas pernas eram atrofiadas. De muletas ou cadeira de rodas, entretanto, Paulinho fazia e acontecia. Dirigia seu próprio carro adaptado, era um excelente professor, casou-se... tinha vários sinais sociais de ser uma pessoa de sucesso. Tanto que, seguidamente, era convidado por associações de pais e amigos de deficientes para palestras do tipo "o excepcional que se deu bem na vida".
Paulinho sempre começava suas palestras do mesmo jeito. Subia no palanque, pegava o microfone, esperava a platéia parar de bater palmas e ficar em silêncio e disparava:
- Boa noite. Não existe nada pior para um deficiente que uma mãe superprotetora.
Sua teoria, pela qual já fora quase apedrejado em algumas dessas palestras, ia na linha do "quem recebe esmola não trabalha". Quanto mais um deficiente aceitar o rótulo de inválido, incapaz, coitadinho, de "eu não dou conta e têm de fazer tudo por mim", pior será para ele mesmo; mais longe estará de transpor de verdade as próprias dificuldades e ser pleno.
Me lembro das falas de Paulinho e fico me perguntando: afinal de contas, qual de nós não tem lá suas "deficienciazinhas"? E quantos não preferem usá-las como justificativa para não se trabalharem? Quantas vezes clamamos por uma mãozinha e na verdade estamos é nos auto-sabotando e querendo mesmo é colinho? Quantas vezes esquecemos que mais bonito é sempre trabalhar junto, e que pena dos outros - e de nós mesmos - não serve para voar?

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