bem viver

Este é o blog do Centro Terapêutico Bem Viver, de Tiradentes, São João Del Rei e Belo Horizonte, MG, onde os terapeutas Idalmo Duarte Júnior e Marisol de Oliveira Jotta conversarão com você a respeito de Medicina Tradicional Chinesa, Psicologia, e sobre o que poderíamos chamar de "caminho da consciência" - estarmos aqui agora para ganharmos nosso presente. As fotos são de nossa sede em Tiradentes. Um grande abraço!

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Location: Tiradentes, MG, Brazil

Acupunturista, massoterapeuta, e alguém que busca fazer da vida "esta é uma empresa optante pelo simples"

Thursday, December 07, 2006

memórias de um acupunturista 2


O nome dela era Glaura, e sua história era muito triste. Um dia, seu filho de quarenta anos, ao qual era muito apegada, passara mal e tivera de ser internado. Foi diagnosticada uma leucemia fulminante que, até então, permanecera oculta fazendo na surdina seu trabalho, e três dias depois o moço morrera. Glaura, apesar de parecer uma mulher de muita fibra e de ter continuado tocando o barco, nunca se recuperara a contento desse baque. "Pais jamais deveriam sobreviver aos filhos", chegou a dizer durante a entrevista. Melão a escutou com atenção, e quando ela terminou, começou a falar:
"Nos momentos de dor e perda, muitos se lembram de Deus. Eu me lembro dos Carpenters, uma banda pop da década de 70. Especificamente de uma canção deles intitulada 'The End of the world' - 'o fim do mundo'. Não te aconselho a escutá-la, não, Glaura. É muito derramadona, baranga mesmo. Mas a letra dela, dependendo de como a interpretamos, pode ser interessante:

'Por quê o sol continua a brilhar?

Por quê as ondas continuam chegando na praia?

Será que não sabem que é o fim do mundo,

Que ele acabou quando você me disse adeus?'

Acho essa letra interessante porque é um bom exemplo da maneira como funcionamos diante da dor: normalmente, ela faz com que a gente diminua as molduras da realidade, até que aparentemente a única coisa que exista seja a própria dor.

Quem primeiro me atentou para esse processo foi Marcos, um paciente cuja esposa morreu de câncer. O processo deles foi completamente diferente do seu, Glaura. A doença foi consumindo Olívia aos poucos, eles sofreram muito enquanto ela lutava com todas as forças para sobreviver. Apesar de todos os esforços, meus inclusive, ela foi definhando e definhando, até ficar claro que iria morrer. Mas, durante o processo, eles tiveram tempo de se prepararem, tempo para a ficha cair. Assim foi melhor? Pior? Sei lá, me parece que na vida a gente nunca está realmente pronto para nada. Treino é treino e jogo é jogo, como dizem no futebol... Em seus momentos finais, Olívia disse:

- Pois é. A gente briga o tanto que dá. Aí, no final, relaxa e recebe a morte como amiga.

Está enterrada no Cemitério da Saudade, aqui mesmo em Belo Horizonte. Pediu que gravassem na lápide as imortais palavras do SuperHomem:

'Para o alto, e avante!'

Ah, mas eu estava falando era do Marcos e dos Carpenters. Alguns meses depois que Olívia faleceu, ele me falou certo dia, quando lhe perguntei como estava lidando com a morte dela:

- Bom, a essa altura do campeonato, já descobri que não há nada nem ninguém que possam preencher o buraco que ela deixou em minha vida. O que há de diferente agora é que descobri que minha vida, e o mundo, são maiores que o buraco. Há mais coisas para serem vistas, vividas, percebidas. O buraco é enorme, isso é inegável. Sinto uma saudade tão grande dela que as palavras são frias demais para descrever. Mas agora escolhi perceber que ele é um buraco, e não um filtro ou um óculos que eu uso para modificar minha percepção de todo o resto. Vivemos juntos trinta anos... Foi muito pouco tempo. Mas foi tempo suficiente para vivermos tudo que tínhamos de viver juntos, nem um segundo a mais, nem um segundo a menos. Pelo menos é assim que prefiro acreditar. O resto é o mundo do 'ah, e se...', as doideiras da cabeça da gente. Me recuso a compactuar com isso, seria empobrecer demais a memória de minha relação com ela. Prefiro agradecer a dádiva de ter tido o privilégio de estar com ela esse tempo tão curto. E de mais a mais, nesse Universo em que nada se cria, nada se perde, tudo se transforma, em que tudo são diferentes aglutinações de uma mesma energia, a sensação de estar separado do resto das coisas não passa de uma ilusão mesmo..."

1 Comments:

Blogger trp_brasil said...

Lindo texto, a dor doi e pronto. O buraco é enorme e pronto. Acreditar que a energia é transmutavel,que podemos estar em outros niveis em qualquer tempo, muda nossa perspectiva.
Outro dia fazendo Yoga ouvi que no Savásana ou postura do Morto, podemos parar e pensar que não somos perenes, que tudo muda o tempo todo no mundo " Como uma onda no mar". Acho que a vida nos ensina, por muitos caminhos, o desapego... E que lição...

6:38 PM  

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