bem viver
Este é o blog do Centro Terapêutico Bem Viver, de Tiradentes, São João Del Rei e Belo Horizonte, MG, onde os terapeutas Idalmo Duarte Júnior e Marisol de Oliveira Jotta conversarão com você a respeito de Medicina Tradicional Chinesa, Psicologia, e sobre o que poderíamos chamar de "caminho da consciência" - estarmos aqui agora para ganharmos nosso presente. As fotos são de nossa sede em Tiradentes. Um grande abraço!
About Me
- Name: Idalmo Duarte
- Location: Tiradentes, MG, Brazil
Acupunturista, massoterapeuta, e alguém que busca fazer da vida "esta é uma empresa optante pelo simples"
Sunday, December 31, 2006
Tuesday, December 19, 2006
fazendo tipo
Que tal em troca da próxima graça alcançada
prometer algo que preste pra alguma coisa dessa vez?
Tipo chamar de perfeição cada evento de sua vida
Tipo perceber-se causador de sua dor
Tipo saber que não há separação entre você e o universo
Tipo não fazer exigências pra dar seu amor...
Que tal em troca da próxima graça alcançada
prometer algo que preste pra alguma coisa dessa vez?
Tipo parar de fazer tipo,
dizer que é pagar mico fazer o que pede o coração;
deixar cair a máscara,
despir a carapaça,
jogar a couraça no chão.
Melhor que prometer:
fazer alguma coisa que preste da próxima vez,
melhor que prometer:
fazer alguma coisa que preste já, agora, dessa vez.
Friday, December 15, 2006
o ridículo medo do ridículo
O primeiro inimigo a matar é o medo do ridículo.
O ridículo é um percevejo mas não faço,
que ataca exatamente na hora da prática.
Lembre-se, só existe uma coisa que vale a pena evitar: evitar.
O que há de pior nesse mundo é o "e se?"
E se você é você, tanto faz;
é capaz que passe direto pelo que era pra sucumbir.
Galinha que segue pato morre afogada,
mas águia querer ser frango, não tem problema não.
Problema é ela não querer ser, mas não sair do galinheiro,
com medo do que os outros dirão: "có, có, có..."
o medo é apenas mais um dos convidados da festa
O medo é apenas mais um dos convidados da festa. Bom anfitrião que você é, não faz sentido que fique pajeando apenas ele. Não quer dizer que você deva ser mal educado e ignorá-lo solenemente. Ele está aí mesmo, né, fazer o quê? Livrar-se dele com o máximo de leveza, graça e rapidez. Tudo bem, o cara é um mala sem alça, mas você é educado, ora. E quem é verdadeiramente educado trata bem quem é legal e quem é chato. Dá um pouquinho de atenção, “ô, medo, você veio! Como vai a família?” Escuta um pouquinho as respostas dele – eu sei, o cara é insuportável, fica contando milhares de vezes a mesma história (ao menos, você pode se esforçar para maravilhar-se um pouco com a capacidade que ele tem de exagerar e caricaturizar as histórias mais e mais a cada nova vez que as conta); mas aí você enverga seu sorriso polido profissional, faz sua melhor cara de paisagem, e na primeira pausa que ele dá pra recuperar o fôlego, pede licença pra ir cuidar dos outros convidados. “Fique a vontade, medo. Recomendações à família!” Aí, pronto, você já está livre e pode ir interagir com convidados mais interessantes, tipo o amor, a coragem, a alegria, a meditação, etc. Ele está muito mal acostumado, afinal faz tempo que você o vem mimando. Capaz que vai ficar todo magoadinho, sentindo-se rejeitado, coitado. A gente torce pra que ele não apareça mais nas próximas festas, mas a tendência é que ele volte, sim, e acabe dando um jeito de te pegar no canto, todo melodramático: “Você está me evitando! Que foi que eu te fiz pra você agir assim comigo, hein? Que foi que eu fiz?!” Controle sua vontade de rir e continue sendo educado: “ô, medo, não é nada disso! Só que não é justo, com tanta gente aqui na festa, eu ficar dando atenção só pra você, não acha? Fique á vontade, depois se der tempo eu passo aqui.” Só que você não passa. De vez em quando, acena de longe, polegares pra cima: “E aí, medo, tudo certo?” Ele vai ficando murcho, sem graça, macambúzio, encostado no canto. Ô dó que dá, né gente? Mas fique firme. Um dia você começa a perceber que até que o danado está fazendo um esforço pra se tornar alguém mais interessante, tem ficado com cada vez menos cara de medo e mais parecido com prudência, com atenção sem tensão. Aí talvez até dê pra voltar a conviver de novo com ele. Mas seja educado: não esqueça dos outros convidados da festa!
Thursday, December 14, 2006
fortalecendo o observador
Vou contar para vocês qual tem sido a minha brincadeira preferida ultimamente.
Primeiro, me lembro que tudo é uma mesma energia. Que aquilo que percebemos como coisas distintas, separadas umas das outras, na verdade são apenas as diferentes aglutinações dessa energia primordial - inclusive nós mesmos. Aí, busco me relacionar com o mundo usando isso como parâmetro. Por exemplo: “puxa, que interessante! Existe uma outra configuração dessa energia que me forma, e que assim como eu também é chamada de ser humano, que sente um grande prazer sensorial ao consumir chocolates!”
Uso essa técnica para observar a mim mesmo, também: “Olha só, essa aglutinação energética que chamo de ‘eu’ sente algo chamado irritação ao ficar presa alguns minutos num congestionamento! Que engraçado!”
Esse é um exercício de relativização, uma técnica para fortalecer o observador em mim. Bom, tem gente que acha meio ridículo. Aí, eu penso: “olha, que interessante! Existe uma outra configuração da energia que me forma, e que assim como eu também é chamada de ser humano, que acha ridícula essa minha brincadeira de ficar vendo as coisas pelo ponto de vista delas serem diferentes aglutinações de uma mesma energia!”
Friday, December 08, 2006
como não ser chifrado(a)
Os relacionamentos modernos tornaram-se algo tão sem compromisso, tão instável, que muitas pessoas têm procurado aqui o Super Consultório Infalível de Aconselhamento Amoroso do Doutor Idalmo, em busca de como fazer para jamais ser chifrado nem correr o risco de ser trocado por alguém menos neurótico. Muito bem. Pois agora vou ensinar para vocês, meus leitores e leitoras fiéis, em primeira mão, como ser bem sucedido neste terreno tão pantanoso.
Em primeiro lugar, deve-se estar atento na escolha do cônjuge. É importante optar por uma pessoa não só sem atrativos, sem sal, pobre de carteira e de espírito, mas francamente mala sem alça. Daquelas que quando vai embora até velório parece uma festa. E feia, também. Saca o tipo que não dá tesão nem num pernilongo? Esse mesmo. Vai nessa!
Mas todo esse cuidado ainda será pouco se não atentarmos para o último item da lista: você deve se esforçar ao máximo para fazer de si mesmo também uma pessoa absolutamente desprovida de atrativos e qualidades. Porque senão, se você for alguém bacana, ainda vai ter aquele olho gordo para o qual não há diet colírio que chegue, e que ficará se perguntando: “Mas Fulano(a), pessoa tão interessante, que é que está fazendo amarrado(a) num panguá do quilate daquilo ali? Ah... Aposto que embaixo daquela capa pesada de desencantos deve haver algum tesouro a ser encontrado, e só Fulano(a) que sacou! Mas eu não sou bobo! Vou lá conferir!”
Seguindo estes conselhos, agarantio que você estará devidamente vacinado(a) contra cultivar uma plantação de chifres na testa. Mas se ainda não der certo, amarra a cueca ou a calcinha do(a) infeliz e põe no congelador, que Mãe Josefa do Cole Cole jurou pra mim que é tiro e queda. Especialmente queda. Porque a função de uma relação não é trazer segurança; é ser uma oportunidade de crescimento. Para ambos. Se você está querendo garantias na vida, você não está querendo a vida: a única certeza é a morte. Casamento bom, portanto, não é aquele que é para sempre: é aquele que é para cada dia.
Thursday, December 07, 2006
memórias de um acupunturista 2
O nome dela era Glaura, e sua história era muito triste. Um dia, seu filho de quarenta anos, ao qual era muito apegada, passara mal e tivera de ser internado. Foi diagnosticada uma leucemia fulminante que, até então, permanecera oculta fazendo na surdina seu trabalho, e três dias depois o moço morrera. Glaura, apesar de parecer uma mulher de muita fibra e de ter continuado tocando o barco, nunca se recuperara a contento desse baque. "Pais jamais deveriam sobreviver aos filhos", chegou a dizer durante a entrevista. Melão a escutou com atenção, e quando ela terminou, começou a falar:
"Nos momentos de dor e perda, muitos se lembram de Deus. Eu me lembro dos Carpenters, uma banda pop da década de 70. Especificamente de uma canção deles intitulada 'The End of the world' - 'o fim do mundo'. Não te aconselho a escutá-la, não, Glaura. É muito derramadona, baranga mesmo. Mas a letra dela, dependendo de como a interpretamos, pode ser interessante:
"Nos momentos de dor e perda, muitos se lembram de Deus. Eu me lembro dos Carpenters, uma banda pop da década de 70. Especificamente de uma canção deles intitulada 'The End of the world' - 'o fim do mundo'. Não te aconselho a escutá-la, não, Glaura. É muito derramadona, baranga mesmo. Mas a letra dela, dependendo de como a interpretamos, pode ser interessante:
'Por quê o sol continua a brilhar?
Por quê as ondas continuam chegando na praia?
Será que não sabem que é o fim do mundo,
Que ele acabou quando você me disse adeus?'
Acho essa letra interessante porque é um bom exemplo da maneira como funcionamos diante da dor: normalmente, ela faz com que a gente diminua as molduras da realidade, até que aparentemente a única coisa que exista seja a própria dor.
Quem primeiro me atentou para esse processo foi Marcos, um paciente cuja esposa morreu de câncer. O processo deles foi completamente diferente do seu, Glaura. A doença foi consumindo Olívia aos poucos, eles sofreram muito enquanto ela lutava com todas as forças para sobreviver. Apesar de todos os esforços, meus inclusive, ela foi definhando e definhando, até ficar claro que iria morrer. Mas, durante o processo, eles tiveram tempo de se prepararem, tempo para a ficha cair. Assim foi melhor? Pior? Sei lá, me parece que na vida a gente nunca está realmente pronto para nada. Treino é treino e jogo é jogo, como dizem no futebol... Em seus momentos finais, Olívia disse:
- Pois é. A gente briga o tanto que dá. Aí, no final, relaxa e recebe a morte como amiga.
Está enterrada no Cemitério da Saudade, aqui mesmo em Belo Horizonte. Pediu que gravassem na lápide as imortais palavras do SuperHomem:
'Para o alto, e avante!'
Ah, mas eu estava falando era do Marcos e dos Carpenters. Alguns meses depois que Olívia faleceu, ele me falou certo dia, quando lhe perguntei como estava lidando com a morte dela:
- Bom, a essa altura do campeonato, já descobri que não há nada nem ninguém que possam preencher o buraco que ela deixou em minha vida. O que há de diferente agora é que descobri que minha vida, e o mundo, são maiores que o buraco. Há mais coisas para serem vistas, vividas, percebidas. O buraco é enorme, isso é inegável. Sinto uma saudade tão grande dela que as palavras são frias demais para descrever. Mas agora escolhi perceber que ele é um buraco, e não um filtro ou um óculos que eu uso para modificar minha percepção de todo o resto. Vivemos juntos trinta anos... Foi muito pouco tempo. Mas foi tempo suficiente para vivermos tudo que tínhamos de viver juntos, nem um segundo a mais, nem um segundo a menos. Pelo menos é assim que prefiro acreditar. O resto é o mundo do 'ah, e se...', as doideiras da cabeça da gente. Me recuso a compactuar com isso, seria empobrecer demais a memória de minha relação com ela. Prefiro agradecer a dádiva de ter tido o privilégio de estar com ela esse tempo tão curto. E de mais a mais, nesse Universo em que nada se cria, nada se perde, tudo se transforma, em que tudo são diferentes aglutinações de uma mesma energia, a sensação de estar separado do resto das coisas não passa de uma ilusão mesmo..."
