memórias de um acupunturista
Essa história aconteceu durante os meus anos de formação, na época em que fui estagiário de Luiz Carlos Melão, que considero um de meus mestres de acupuntura. Eu acompanhava o dia a dia de seus atendimentos, mantendo a sala em ordem e auxiliando no que me era solicitado, e anotava obsessivamente tudo que se passava no consultório.
O último paciente daquele dia veio caminhando com passos duros pelo corredor. O barulho que fazia deu a impressão que quem surgiria na porta seria alguém muito maior que o sujeito que finalmente apareceu; ainda assim, seu rosto muito vermelho e de cenho franzido dava-lhe um ar deveras intimidante. Parou do lado de fora, com os braços cruzados, olhando-nos com visível reprovação.
- Antes de mais nada – disse com voz de general comandando o batalhão – quero dizer que só estou aqui porque minha mulher, que já fez tratamento com você, insistiu muito pra que eu viesse, que talvez você pudesse me dar algum alívio de minha gastrite. Mas quero que fique bem claro que eu não acredito em você, não acredito no que você faz, e acho que você é um picareta.
- Não se preocupe – Melão respondeu, bonachão – acupuntura funciona em qualquer animal.
Pronto, agora vamos os dois apanhar aqui dentro, pensei.
O cara travou, de olhos arregalados, como se repentinamente tivesse engasgado com uma espinha de peixe durante a refeição. Ainda ficou ali, congelado, por um interminável instante. E então... Começou a rir. Convulsivamente, de chorar, como se alguém tivesse finalmente levantado a bailarina de uma panela de pressão que estivesse prestes a estourar após tempo demais no fogo. Ficou assim alguns instantes, e quase dava pra sentir a tensão no ar da sala se dissipando. Quando o ataque passou, ele sentou-se tão relaxado como nos sentamos junto a amigos que conhecemos à décadas na cadeira que Melão lhe ofereceu. A sessão foi ótima, e ele já saiu de lá se sentindo muito aliviado de seu desconforto gástrico.
O último paciente daquele dia veio caminhando com passos duros pelo corredor. O barulho que fazia deu a impressão que quem surgiria na porta seria alguém muito maior que o sujeito que finalmente apareceu; ainda assim, seu rosto muito vermelho e de cenho franzido dava-lhe um ar deveras intimidante. Parou do lado de fora, com os braços cruzados, olhando-nos com visível reprovação.
- Antes de mais nada – disse com voz de general comandando o batalhão – quero dizer que só estou aqui porque minha mulher, que já fez tratamento com você, insistiu muito pra que eu viesse, que talvez você pudesse me dar algum alívio de minha gastrite. Mas quero que fique bem claro que eu não acredito em você, não acredito no que você faz, e acho que você é um picareta.
- Não se preocupe – Melão respondeu, bonachão – acupuntura funciona em qualquer animal.
Pronto, agora vamos os dois apanhar aqui dentro, pensei.
O cara travou, de olhos arregalados, como se repentinamente tivesse engasgado com uma espinha de peixe durante a refeição. Ainda ficou ali, congelado, por um interminável instante. E então... Começou a rir. Convulsivamente, de chorar, como se alguém tivesse finalmente levantado a bailarina de uma panela de pressão que estivesse prestes a estourar após tempo demais no fogo. Ficou assim alguns instantes, e quase dava pra sentir a tensão no ar da sala se dissipando. Quando o ataque passou, ele sentou-se tão relaxado como nos sentamos junto a amigos que conhecemos à décadas na cadeira que Melão lhe ofereceu. A sessão foi ótima, e ele já saiu de lá se sentindo muito aliviado de seu desconforto gástrico.
- Pensei que ele fosse nos bater, quando você falou aquela história de acupuntura funcionar em qualquer animal – confessei para Melão depois que o homem tinha saído e estávamos fechando o consultório para ir embora.
Melão riu:
- É fundamental você compreender qual é a energia do paciente. Na hora que ele apareceu, e falou aquelas bobagens, percebi que só estava pedindo encarecidamente por um motivo pelo qual parar de fazer aquele esforço todo para fingir que não acreditava em acupuntura, a despeito de toda informação relativa à eficácia dela veiculada maciçamente na mídia hoje em dia. E também, é claro, para finalmente abrir mão daquela gastrite que tanto o estava incomodando. É bom que você se lembre: nada está mais próximo da conversão completa que a ojeriza absoluta... O que não quer dizer que, se eu o pegasse da maneira errada, não corrêssemos mesmo o risco de apanhar igual dois condenados aqui dentro desse consultório.
- Mas como é que você sabia que essa era a maneira correta de abordar esse cara pra desarmá-lo?
- Aí é que está o pulo do gato. Se você realmente está presente, atento, a resposta sempre está ali. Se você não tem uma fórmula pré-concebida de como deve tratar uma pessoa, se você não a observa com um pré-conceito, não a rotula ao invés de interagir com ela momento a momento, a resposta está lá. Estar presente deixa a caixa de ferramentas aberta à sua frente, com um repertório verdadeiramente infinito de possibilidades a seu alcance, e então tudo que você precisará fazer é olhar o parafuso pra saber qual chave de fenda será mais eficiente para atarrachá-lo.
- Isso me lembra um conceito interessante que li em um livro de ficção científica: “grocar”. O autor usou esse termo pra descrever uma habilidade que uma raça extraterrestre tinha de moldar-se de acordo com a pessoa com a qual estivesse interagindo. Como a água, que adapta sua forma ao recipiente que a contém.
- Sim, tem muito a ver. E que o parâmetro que norteia o seu moldar seja sempre o amor. Amor no sentido de fazer tudo que estiver ao seu alcance para ajudar o outro a se reinventar, a cada instante, de acordo com a nova idéia mais elevada a respeito de si mesmo que ele conseguir conceber.

1 Comments:
Olá Idalmo e Marisol
embora não tenha retornado A tiradentes jamais nos esqueceremos da hospitalidade de vocês. esperamos que estejam bem, com saúde e felizes. Procure-me no facebook ou no myspace para nos falarmos. Grande abraço com carinho e respeito, Jorge Dikamba e Helena
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