bem viver

Este é o blog do Centro Terapêutico Bem Viver, de Tiradentes, São João Del Rei e Belo Horizonte, MG, onde os terapeutas Idalmo Duarte Júnior e Marisol de Oliveira Jotta conversarão com você a respeito de Medicina Tradicional Chinesa, Psicologia, e sobre o que poderíamos chamar de "caminho da consciência" - estarmos aqui agora para ganharmos nosso presente. As fotos são de nossa sede em Tiradentes. Um grande abraço!

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Acupunturista, massoterapeuta, e alguém que busca fazer da vida "esta é uma empresa optante pelo simples"

Sunday, November 26, 2006

amar é...


Este conto foi enviado pelo Anselmo Eduardo Adelmo, de Santa Jacutinga das Antas (essa cidade existe mesmo?!), como comentário a respeito do post "Falando de Amores". Achei muito bom e por isso resolvi publicá-lo aqui. Fora que preciso agradar o cara; como foi o único até agora que publicou um comentário a respeito de um dos textos do blog, pelo visto é o único leitor que tenho...





AMAR É...

Eu nunca soube de verdade se meu marido me amava ou não. Denílson sempre foi do tipo fechadão, seco, filosófico. Não adiantava nada eu usar a estratégia tradicional de falar “eu amo você” pra escutá-lo educadamente repetir pra mim; ele ficava só me olhando, como se estivesse tentando me decifrar. Até que eu, claro, não suportando mais aquele silêncio inquiridor, finalmente perguntava: “E você, me ama?” Então, vitoriosamente, como se só estivesse esperando eu dar minha deixa no teatrinho, ele devolvia de bate-pronto: “O que é que você está chamando de amor?”
Aquilo me revoltava profundamente. Sempre achei esse tipo de busca daquilo que está por trás alicerçando as coisas e os sentimentos o negócio mais anti-poético do mundo; por isso, por exemplo, é que eu me recuso a ver os making-ofs dos filmes que vêm como extras nos DVDs: faço qualquer coisa para não perder a magia. Eu sei que sou minhas emoções, que além ou por trás delas não existe mais nada, não pode existir. Portanto, “ora, meu querido” – eu respondia, dolorida – “Amor pra ser amor de verdade não se presta a definições, não. Se a gente ama, a gente sabe! E lhe digo mais, se você tem de perguntar esse tipo de coisa, é por que na verdade não me ama, nunca me amou!” Eu começava sempre a chorar, mas nem assim adiantava; ele não me consolava, não me pegava no colo, não fazia cafuné, não sussurrava “eu sem você sou só desamor/ um barco sem mar um campo sem flor”. Ficava apenas me olhando constrangido, como se eu fosse uma criança birrenta dando piti no meio da rua. Aí eu acabava de ficar realmente revoltada, que sujeito mais sem compaixão! Pegava minhas coisas, avisava gravemente que ia dormir no outro quarto e que no dia seguinte ia embora pra casa de minha mãe. Ele parecia ficar triste com isso; era como se eu o estivesse decepcionando uma segunda vez. Mas nem assim dava o braço a torcer. Dizia apenas: “Se é isso que você quer, tudo bem”. No dia seguinte, mais calma, eu acabava ficando, embora a frustração e a mágoa de não ouvir dele as palavras de carinho e afeição que eu queria fossem progressivamente envenenando meu coração. Ah, que saudade que eu tinha do começo de nosso namoro! Lembro da paixão inicial, aquele fogo todo, nós dois sentados numa mesa de boteco de cidadezinha do interior, na nossa primeira viagem juntos. Tocou no rádio aquela música “nem o sol/ nem o mar/ nem o brilho das estrelas/ tudo isso não tem valor sem ter você...” Ai, ai, e uma luz meio rosa, meio azulada parecia envolver a gente, emanando uma conexão cósmica entre nossos seres, era o fim de toda procura, almas gêmeas se encontravam, mergulhávamos fascinados nos olhos um do outro e o resto do mundo inteiro nem parecia existir. Nós brilhávamos! Ah, eu queria aquele êxtase pra sempre!... Mas foi tudo esfriando, virando cotidiano, rotina. Tanto que pouco tempo depois que casamos eu já perguntava devastada pra Denílson: “Onde, querido? Onde foi parar toda aquela paixão?” Mas ele me enrolava dizendo que a manutenção eterna daquele incêndio inicial era humanamente impossível, o máximo que poderíamos fazer a respeito era nos esforçarmos para transformá-lo em uma lareira para aquecer nosso lar. Palavras totalmente vãs e inócuas; aquilo era pouco pra mim e, sendo pouco, não podia ser de verdade.
As coisas pioraram ainda mais quando, depois de uns seis anos de casamento, ele se interessou e começou a ler incessantemente toda aquela corja de autores místicos orientais. Entrei em depressão, me sentia relegada ao segundo plano, e mais que isso, pessoalmente ameaçada por aqueles livros. Onde já se viu, aquelas porcarias estavam tomando o tempo que ele poderia estar disponibilizando pra ficar comigo! Ele ficava lá sentado lendo, fascinado, de vez em quando ria sozinho igual um bobo, em outros momentos enchia os olhos de lágrimas... Eu queria aquelas emoções pra mim, queria que ele as tivesse comigo, sua esposa, sua companheira, e ele ficava gastando o que deveria ser meu com aqueles autores idiotas! Aí eu virava uma fera: “Esses livros ficam tirando você da realidade! Você está usando eles para fugir de suas responsabilidades e de mim! Você não me ama!” Ele fazia cara de desapontadíssimo, pra variar. Era óbvio que eu não era a mulher que ele queria como companheira. Desejava era ser deixado em paz com aqueles calhamaços idiotas. Eles eram mais importantes que eu. “Por que é que você não casa com essa merda desses livros?!”- eu perguntava, fora de mim. Denílson respirava fundo: “Regina” – respondia, afetando uma insuportável voz profunda de mestre iluminado – “Estou justamente fazendo essas leituras para aprender a estar realmente presente em cada momento de minha vida; desse modo, querida, quando eu estiver com você, estarei realmente com você!”
Agora vocês falarão: quer dizer que aquele maluco precisava de um livro para aprender a estar no mundo, como se não bastasse apenas estar no mundo pra estar no mundo? Sim, concordo, aparentemente parecia mesmo loucura; mas eu, com minha esperteza e intuição femininas, percebia a verdade por trás daquele conveniente repetir de papagaio das bobagens que ele lia em suas tipoiazinhas literárias: aquilo tudo não passava de desculpas esfarrapadas para justificar a falta de amor e companheirismo crônicas que ele tinha, e que o impediam, por exemplo, de ficar assistindo novela comigo. Denílson mantinha nossa relação apenas por inércia, por puro comodismo.“Vem cá, bem, vem aprender com a Leandra Cardoso e o Denis Francisco como é que se deve fazer”, eu chamava, ronronando, do sofá em frente à TV. “Deus me livre”, ele respondia como um tapa na minha cara: “A busca desse amorzinho romântico idealizado das novelas é a mais bem acabada receita de infelicidade que eu já vi na vida!”
Denílson; ali estava realmente um sujeito de coração ruim. Minhas amigas me falavam o tempo inteiro pra eu parar de insistir naquele crápula que só me fazia sofrer. Mas o que é que eu podia fazer? Gostava mais dele do que de mim mesma... Ah, eu era uma bobalhona mesmo. Continuava investindo naquela relação sem futuro. Continuava pedindo: “Diz que me ama, amor, diz!” Às vezes ele perdia a paciência com minha insistência e gritava comigo: “Pára de torrar o meu saco, porra!” Vê se isso seria algo que ele diria se fosse mesmo tão iluminado! Eu caía em prantos convulsivos, me sentindo o cocô do cavalo do bandido. “Ai, meu Deus, por que é que eu não largo desse homem, por quê? Será que eu gosto de sofrer?” Um dia, depois que chorei muito, minha cabeça estava até doendo, ele por fim fez como se estivesse capitulando: “Está certo, Regina, vou te fazer uma declaração de amor. A mais bonita que consigo conceber, a mais elevada que sou capaz.” Me senti na Sétimo Céu, a revista de fotonovelas. Pulei no pescoço dele, chorei de novo mas agora era de felicidade, enchi seu rosto de beijos. Ele ficou divertido e também um pouco constrangido: “Calma, querida, calma. Fique quietinha senão eu não falo. Isso. Tranqüila. Está pronta? Então vamos lá. Um, dois, três... Regina querida, você não me completa. Na minha vida, não preenche nenhuma função. Eu não preciso de você pra nada. Estou contigo apenas... por gostar de mim, e de você”.
Meu mundo caiu. Não podia acreditar que meu marido conseguira ser tão perverso. Eu pedira uma declaração de amor, e ele me dava aquilo?! Demorou alguns instantes para passar meu pasmo, mas aí, então, perdi o controle. Comecei a gritar: “Não! Não é nada disso, seu bosta! Você está estragando tudo! Você tem de precisar de mim sim, senão não é amor! O centro do seu mundo tem de ser eu, assim como o centro do meu é você! E saiba que eu percebi muito bem o cinismo em sua voz enquanto você falava esse monte de palhaçadas, nem mesmo você acredita que essa porcariada toda é uma declaração de amor, seu filho da puta!”
Ele arregalou os olhos, franziu as sobrancelhas, a cor fugiu de seu rosto. Achei que ia me bater, mas ele respirou fundo e começou a argumentar, com voz pausada e didática:
- Não, Regina. Eu realmente acredito que essa é a maior declaração de amor que um ser humano pode fazer a outro. Amar, descobri em minhas leituras, tem a ver com você fazer tudo que estiver a seu alcance para ajudar o outro a se construir livremente a cada instante, de acordo com a idéia mais elevada a respeito de si mesmo que ele conseguir conceber. O cinismo que você detectou em meu tom de voz, que confesso que realmente existiu e lhe peço desculpas por isso, tem a ver com eu ainda não ter conseguido deixar de me importar como fato de saber que você, ao ouvir isso que estou chamando de “bela declaração de amor”, iria se sentir profundamente magoada, ressentida, e usaria isso para mais uma vez chegar à conclusão de que não amo você; sem nem mesmo perceber que o que está fazendo é ser egoísta a ponto de dizer “não basta que você me ame; tem de ser do meu jeito!” Só que assim você não está amando o outro de verdade; está amando apenas a si mesma através do outro; e a grande prova disso é que, quando a atitude do outro não corresponde às suas expectativas, você fica puta da vida com ele!
- Pode parar com essas liçõezinhas de moral que eu não estou precisando de nenhum Mestre na minha vida, não. Eu preciso é de um marido! De mais a mais, desse jeito que você descreveu a coisa fica toda solta demais, tudo pode ser. Eu dou o máximo de mim, me entrego totalmente na relação, sem esperar que o outro me ame em troca? Até parece que existe essa coisa de dar sem querer retorno! Que graça que tem? Eu fico me sentindo a otária da aldeia, isso sim!
- Nós aqui não estamos falando de uma relação comercial, e sim de uma relação amorosa, na qual acontece exatamente o oposto: o vencedor é aquele que dá mais, e não quem recebe mais. Você dá o que quer, o outro também, e agradecemos mesmo se o outro der algo diferente daquilo que queremos, porque sabemos que o que importa é o dar, não o receber.
- Sei, então o seu ideal de amor é ser igual às mulheres do MADA, que se anulam em função dos seus maridos!...
- Não, eu estou falando de algo diferente; não é se anular em função do outro, é seguir o Mandamento e amar ao próximo como a si mesmo, não “amar” a si mesmo no próximo!
- Mas pra quê? Que coisa mais sem sentido! Qual o objetivo disso?
- Assim poderemos estar realizando e permitindo ao outro realizar aquilo que viemos fazer nesse planeta: nos recriarmos continuamente a cada momento de acordo com a nova idéia mais elevada a respeito de nós mesmos que conseguimos conceber, e desse modo...
- Chega! Mas que bando absurdo de bobagens! Eu não estou aqui pra me recriar de acordo com idéia mais elevada de porcaria nenhuma, eu sou assim mesma desde que nasci e assim serei para o resto de minha vida, e se você não estiver satisfeito sinto muito, desculpe se não consigo ser tão iluminada quanto você gostaria! Eu me entrego totalmente e o outro pode me dar uma banana que eu vou achar ótimo?! Nada disso, eu sou ambiciosa no amor e na vida, meu querido! Quero tudo do bom e do melhor pra mim! Não vou me contentar com menos não! Não sou masoquista, eu faço porque quero o retorno do outro pra aquilo que faço, e quem diz diferente na verdade está mentindo ou então é doente de complexo de inferioridade! Desse jeito aí, que diferença vai haver entre o amor que você sente por mim e o que sente pelo resto da humanidade? O que sente por um mendigo? O que fará de mim alguém mais especial dentro de sua vida? Me responde!
- Bem, Regina... Idealmente? Nada.
- Ah, nada!! Que lindo! Mas então, por exemplo, onde fica a fidelidade nisso tudo? Você pode me trair, e tudo bem? E se eu transasse com outro cara, como é que você ia sentir?
- Se eu já fosse a idéia mais elevada a respeito de mim mesmo que consigo conceber? Me sentiria tranqüilo, até mesmo feliz, sabendo que você tinha feito aquilo porque sentira vontade, pra se conhecer melhor, pra sentir prazer ou o que fosse; e eu, não sendo maior que você ou o centro de sua vida, e te amando e querendo portanto que você seja feliz e realizada dentro daquilo que chama de felicidade e realização, te apoiaria em quaisquer experiências que quisesse ter.
- Isso prova que você não me ama! Quem ama quer o outro pra si!
- Isso é amar o outro ou amar o próprio ego? Se colocar como o centro do Universo e única possibilidade de realização pessoal do companheiro?
- Mas e se eu descobrir que gosto mais do outro e te abandonar?
- A resposta ainda é a mesma; quem sou eu para dizer que sou o melhor companheiro, o que mais tem a ver contigo que você pode encontrar nesse planeta com seis bilhões de seres humanos?
- Ai que dor no coração! Então você está insatisfeito, vasculhando a multidão, e se relaciona comigo só enquanto não acha alguém que tenha mais a ver com você, Denílson?!
- Não, enquanto estou com você, o que busco é estar com você, Regina. Inteiramente com você, plenamente com você, nesse momento. Uma relação não é um contrato com garantias de eternidade, é uma coisa viva, dinâmica, não vem embalada em formol ou em fórmulas. Se você está querendo garantias na vida, na verdade não está querendo a vida, meu bem! A única garantia é a morte!
- Não! Eu não aceito isso! Relação sem fidelidade pra mim não é relação!
- Confesso que essa idéia pra mim também é difícil, não consegui ainda deixar minha auto-importância de lado o suficiente pra alcançar essa que ao fim e ao cabo cheguei à conclusão que é a idéia mais elevada a res...
- Pára com esse papo idiota de idéia elevada a respeito de barará! De mais a mais, mesmo que eu estivesse aqui nesse planeta para correr atrás dessa merda, quem tem de escolher qual é a idéia mais elevada a respeito de mim mesma que eu consigo conceber sou eu, não é? Ou é você que é mais iluminado? E eu escolho que a idéia mais elevada a respeito de mim mesma inclui a exigência de fidelidade numa relação para que eu possa dizer que nela existe amor!
- Mas isso é empobrecer a relação, é fazer dela menos que suas possibilidades...
- Quem tem de escolher isso sou eu! Se isso faz de mim um ser mesquinho pouco evoluído espiritualmente diante de você, isso é o seu julgamento, e não o meu, e você não tem o direito de impor qualquer coisa que seja para mim!
Denílson ficou em silêncio, e foi murchando igual um balão. Por fim suspirou:
- Você tem razão. E na verdade, nessa história toda você está mais certa do que eu; age de acordo com aquilo que acredita. Eu acho muito bonitas essas idéias que prego, mas ainda não dou conta de viver de acordo com elas. Você é integral, Regina, enquanto que eu não passo de um esquizóide de personalidade cindida. Me lembro de quando resolvi te pedir em casamento... Estávamos naquele clube campestre, lembra? Eu estava sentado e você foi no balcão pegar uma cerveja, ia passando entre as mesas e todos os homens ficaram te secando com os olhos, babando por você. Eu fiquei louco de ciúme, e foi ali naquele momento que resolvi te pedir em casamento: pra garantir sua posse, pra que nenhum deles pudesse te roubar de mim...
Denílson começou a chorar copiosamente, não conseguia continuar a falar. Fui até ele e o abracei comovida: aquela confissão tinha sido a coisa mais bonita que eu já escutara em toda minha vida! A minha linda declaração de amor! Foi ali que encontrei o alento para continuar investindo em nossa relação. No momento ela podia não estar um mar de rosas, mas o essencial possuía: tinha começado pelos motivos certos! A tendência, portanto, era que no final tudo acabasse se ajeitando. Igual sempre acontece, ao som de violinos e sob fogos de artifício, no último capítulo de todas as novelas.

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