bem viver

Este é o blog do Centro Terapêutico Bem Viver, de Tiradentes, São João Del Rei e Belo Horizonte, MG, onde os terapeutas Idalmo Duarte Júnior e Marisol de Oliveira Jotta conversarão com você a respeito de Medicina Tradicional Chinesa, Psicologia, e sobre o que poderíamos chamar de "caminho da consciência" - estarmos aqui agora para ganharmos nosso presente. As fotos são de nossa sede em Tiradentes. Um grande abraço!

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Location: Tiradentes, MG, Brazil

Acupunturista, massoterapeuta, e alguém que busca fazer da vida "esta é uma empresa optante pelo simples"

Sunday, November 26, 2006

amar é...


Este conto foi enviado pelo Anselmo Eduardo Adelmo, de Santa Jacutinga das Antas (essa cidade existe mesmo?!), como comentário a respeito do post "Falando de Amores". Achei muito bom e por isso resolvi publicá-lo aqui. Fora que preciso agradar o cara; como foi o único até agora que publicou um comentário a respeito de um dos textos do blog, pelo visto é o único leitor que tenho...





AMAR É...

Eu nunca soube de verdade se meu marido me amava ou não. Denílson sempre foi do tipo fechadão, seco, filosófico. Não adiantava nada eu usar a estratégia tradicional de falar “eu amo você” pra escutá-lo educadamente repetir pra mim; ele ficava só me olhando, como se estivesse tentando me decifrar. Até que eu, claro, não suportando mais aquele silêncio inquiridor, finalmente perguntava: “E você, me ama?” Então, vitoriosamente, como se só estivesse esperando eu dar minha deixa no teatrinho, ele devolvia de bate-pronto: “O que é que você está chamando de amor?”
Aquilo me revoltava profundamente. Sempre achei esse tipo de busca daquilo que está por trás alicerçando as coisas e os sentimentos o negócio mais anti-poético do mundo; por isso, por exemplo, é que eu me recuso a ver os making-ofs dos filmes que vêm como extras nos DVDs: faço qualquer coisa para não perder a magia. Eu sei que sou minhas emoções, que além ou por trás delas não existe mais nada, não pode existir. Portanto, “ora, meu querido” – eu respondia, dolorida – “Amor pra ser amor de verdade não se presta a definições, não. Se a gente ama, a gente sabe! E lhe digo mais, se você tem de perguntar esse tipo de coisa, é por que na verdade não me ama, nunca me amou!” Eu começava sempre a chorar, mas nem assim adiantava; ele não me consolava, não me pegava no colo, não fazia cafuné, não sussurrava “eu sem você sou só desamor/ um barco sem mar um campo sem flor”. Ficava apenas me olhando constrangido, como se eu fosse uma criança birrenta dando piti no meio da rua. Aí eu acabava de ficar realmente revoltada, que sujeito mais sem compaixão! Pegava minhas coisas, avisava gravemente que ia dormir no outro quarto e que no dia seguinte ia embora pra casa de minha mãe. Ele parecia ficar triste com isso; era como se eu o estivesse decepcionando uma segunda vez. Mas nem assim dava o braço a torcer. Dizia apenas: “Se é isso que você quer, tudo bem”. No dia seguinte, mais calma, eu acabava ficando, embora a frustração e a mágoa de não ouvir dele as palavras de carinho e afeição que eu queria fossem progressivamente envenenando meu coração. Ah, que saudade que eu tinha do começo de nosso namoro! Lembro da paixão inicial, aquele fogo todo, nós dois sentados numa mesa de boteco de cidadezinha do interior, na nossa primeira viagem juntos. Tocou no rádio aquela música “nem o sol/ nem o mar/ nem o brilho das estrelas/ tudo isso não tem valor sem ter você...” Ai, ai, e uma luz meio rosa, meio azulada parecia envolver a gente, emanando uma conexão cósmica entre nossos seres, era o fim de toda procura, almas gêmeas se encontravam, mergulhávamos fascinados nos olhos um do outro e o resto do mundo inteiro nem parecia existir. Nós brilhávamos! Ah, eu queria aquele êxtase pra sempre!... Mas foi tudo esfriando, virando cotidiano, rotina. Tanto que pouco tempo depois que casamos eu já perguntava devastada pra Denílson: “Onde, querido? Onde foi parar toda aquela paixão?” Mas ele me enrolava dizendo que a manutenção eterna daquele incêndio inicial era humanamente impossível, o máximo que poderíamos fazer a respeito era nos esforçarmos para transformá-lo em uma lareira para aquecer nosso lar. Palavras totalmente vãs e inócuas; aquilo era pouco pra mim e, sendo pouco, não podia ser de verdade.
As coisas pioraram ainda mais quando, depois de uns seis anos de casamento, ele se interessou e começou a ler incessantemente toda aquela corja de autores místicos orientais. Entrei em depressão, me sentia relegada ao segundo plano, e mais que isso, pessoalmente ameaçada por aqueles livros. Onde já se viu, aquelas porcarias estavam tomando o tempo que ele poderia estar disponibilizando pra ficar comigo! Ele ficava lá sentado lendo, fascinado, de vez em quando ria sozinho igual um bobo, em outros momentos enchia os olhos de lágrimas... Eu queria aquelas emoções pra mim, queria que ele as tivesse comigo, sua esposa, sua companheira, e ele ficava gastando o que deveria ser meu com aqueles autores idiotas! Aí eu virava uma fera: “Esses livros ficam tirando você da realidade! Você está usando eles para fugir de suas responsabilidades e de mim! Você não me ama!” Ele fazia cara de desapontadíssimo, pra variar. Era óbvio que eu não era a mulher que ele queria como companheira. Desejava era ser deixado em paz com aqueles calhamaços idiotas. Eles eram mais importantes que eu. “Por que é que você não casa com essa merda desses livros?!”- eu perguntava, fora de mim. Denílson respirava fundo: “Regina” – respondia, afetando uma insuportável voz profunda de mestre iluminado – “Estou justamente fazendo essas leituras para aprender a estar realmente presente em cada momento de minha vida; desse modo, querida, quando eu estiver com você, estarei realmente com você!”
Agora vocês falarão: quer dizer que aquele maluco precisava de um livro para aprender a estar no mundo, como se não bastasse apenas estar no mundo pra estar no mundo? Sim, concordo, aparentemente parecia mesmo loucura; mas eu, com minha esperteza e intuição femininas, percebia a verdade por trás daquele conveniente repetir de papagaio das bobagens que ele lia em suas tipoiazinhas literárias: aquilo tudo não passava de desculpas esfarrapadas para justificar a falta de amor e companheirismo crônicas que ele tinha, e que o impediam, por exemplo, de ficar assistindo novela comigo. Denílson mantinha nossa relação apenas por inércia, por puro comodismo.“Vem cá, bem, vem aprender com a Leandra Cardoso e o Denis Francisco como é que se deve fazer”, eu chamava, ronronando, do sofá em frente à TV. “Deus me livre”, ele respondia como um tapa na minha cara: “A busca desse amorzinho romântico idealizado das novelas é a mais bem acabada receita de infelicidade que eu já vi na vida!”
Denílson; ali estava realmente um sujeito de coração ruim. Minhas amigas me falavam o tempo inteiro pra eu parar de insistir naquele crápula que só me fazia sofrer. Mas o que é que eu podia fazer? Gostava mais dele do que de mim mesma... Ah, eu era uma bobalhona mesmo. Continuava investindo naquela relação sem futuro. Continuava pedindo: “Diz que me ama, amor, diz!” Às vezes ele perdia a paciência com minha insistência e gritava comigo: “Pára de torrar o meu saco, porra!” Vê se isso seria algo que ele diria se fosse mesmo tão iluminado! Eu caía em prantos convulsivos, me sentindo o cocô do cavalo do bandido. “Ai, meu Deus, por que é que eu não largo desse homem, por quê? Será que eu gosto de sofrer?” Um dia, depois que chorei muito, minha cabeça estava até doendo, ele por fim fez como se estivesse capitulando: “Está certo, Regina, vou te fazer uma declaração de amor. A mais bonita que consigo conceber, a mais elevada que sou capaz.” Me senti na Sétimo Céu, a revista de fotonovelas. Pulei no pescoço dele, chorei de novo mas agora era de felicidade, enchi seu rosto de beijos. Ele ficou divertido e também um pouco constrangido: “Calma, querida, calma. Fique quietinha senão eu não falo. Isso. Tranqüila. Está pronta? Então vamos lá. Um, dois, três... Regina querida, você não me completa. Na minha vida, não preenche nenhuma função. Eu não preciso de você pra nada. Estou contigo apenas... por gostar de mim, e de você”.
Meu mundo caiu. Não podia acreditar que meu marido conseguira ser tão perverso. Eu pedira uma declaração de amor, e ele me dava aquilo?! Demorou alguns instantes para passar meu pasmo, mas aí, então, perdi o controle. Comecei a gritar: “Não! Não é nada disso, seu bosta! Você está estragando tudo! Você tem de precisar de mim sim, senão não é amor! O centro do seu mundo tem de ser eu, assim como o centro do meu é você! E saiba que eu percebi muito bem o cinismo em sua voz enquanto você falava esse monte de palhaçadas, nem mesmo você acredita que essa porcariada toda é uma declaração de amor, seu filho da puta!”
Ele arregalou os olhos, franziu as sobrancelhas, a cor fugiu de seu rosto. Achei que ia me bater, mas ele respirou fundo e começou a argumentar, com voz pausada e didática:
- Não, Regina. Eu realmente acredito que essa é a maior declaração de amor que um ser humano pode fazer a outro. Amar, descobri em minhas leituras, tem a ver com você fazer tudo que estiver a seu alcance para ajudar o outro a se construir livremente a cada instante, de acordo com a idéia mais elevada a respeito de si mesmo que ele conseguir conceber. O cinismo que você detectou em meu tom de voz, que confesso que realmente existiu e lhe peço desculpas por isso, tem a ver com eu ainda não ter conseguido deixar de me importar como fato de saber que você, ao ouvir isso que estou chamando de “bela declaração de amor”, iria se sentir profundamente magoada, ressentida, e usaria isso para mais uma vez chegar à conclusão de que não amo você; sem nem mesmo perceber que o que está fazendo é ser egoísta a ponto de dizer “não basta que você me ame; tem de ser do meu jeito!” Só que assim você não está amando o outro de verdade; está amando apenas a si mesma através do outro; e a grande prova disso é que, quando a atitude do outro não corresponde às suas expectativas, você fica puta da vida com ele!
- Pode parar com essas liçõezinhas de moral que eu não estou precisando de nenhum Mestre na minha vida, não. Eu preciso é de um marido! De mais a mais, desse jeito que você descreveu a coisa fica toda solta demais, tudo pode ser. Eu dou o máximo de mim, me entrego totalmente na relação, sem esperar que o outro me ame em troca? Até parece que existe essa coisa de dar sem querer retorno! Que graça que tem? Eu fico me sentindo a otária da aldeia, isso sim!
- Nós aqui não estamos falando de uma relação comercial, e sim de uma relação amorosa, na qual acontece exatamente o oposto: o vencedor é aquele que dá mais, e não quem recebe mais. Você dá o que quer, o outro também, e agradecemos mesmo se o outro der algo diferente daquilo que queremos, porque sabemos que o que importa é o dar, não o receber.
- Sei, então o seu ideal de amor é ser igual às mulheres do MADA, que se anulam em função dos seus maridos!...
- Não, eu estou falando de algo diferente; não é se anular em função do outro, é seguir o Mandamento e amar ao próximo como a si mesmo, não “amar” a si mesmo no próximo!
- Mas pra quê? Que coisa mais sem sentido! Qual o objetivo disso?
- Assim poderemos estar realizando e permitindo ao outro realizar aquilo que viemos fazer nesse planeta: nos recriarmos continuamente a cada momento de acordo com a nova idéia mais elevada a respeito de nós mesmos que conseguimos conceber, e desse modo...
- Chega! Mas que bando absurdo de bobagens! Eu não estou aqui pra me recriar de acordo com idéia mais elevada de porcaria nenhuma, eu sou assim mesma desde que nasci e assim serei para o resto de minha vida, e se você não estiver satisfeito sinto muito, desculpe se não consigo ser tão iluminada quanto você gostaria! Eu me entrego totalmente e o outro pode me dar uma banana que eu vou achar ótimo?! Nada disso, eu sou ambiciosa no amor e na vida, meu querido! Quero tudo do bom e do melhor pra mim! Não vou me contentar com menos não! Não sou masoquista, eu faço porque quero o retorno do outro pra aquilo que faço, e quem diz diferente na verdade está mentindo ou então é doente de complexo de inferioridade! Desse jeito aí, que diferença vai haver entre o amor que você sente por mim e o que sente pelo resto da humanidade? O que sente por um mendigo? O que fará de mim alguém mais especial dentro de sua vida? Me responde!
- Bem, Regina... Idealmente? Nada.
- Ah, nada!! Que lindo! Mas então, por exemplo, onde fica a fidelidade nisso tudo? Você pode me trair, e tudo bem? E se eu transasse com outro cara, como é que você ia sentir?
- Se eu já fosse a idéia mais elevada a respeito de mim mesmo que consigo conceber? Me sentiria tranqüilo, até mesmo feliz, sabendo que você tinha feito aquilo porque sentira vontade, pra se conhecer melhor, pra sentir prazer ou o que fosse; e eu, não sendo maior que você ou o centro de sua vida, e te amando e querendo portanto que você seja feliz e realizada dentro daquilo que chama de felicidade e realização, te apoiaria em quaisquer experiências que quisesse ter.
- Isso prova que você não me ama! Quem ama quer o outro pra si!
- Isso é amar o outro ou amar o próprio ego? Se colocar como o centro do Universo e única possibilidade de realização pessoal do companheiro?
- Mas e se eu descobrir que gosto mais do outro e te abandonar?
- A resposta ainda é a mesma; quem sou eu para dizer que sou o melhor companheiro, o que mais tem a ver contigo que você pode encontrar nesse planeta com seis bilhões de seres humanos?
- Ai que dor no coração! Então você está insatisfeito, vasculhando a multidão, e se relaciona comigo só enquanto não acha alguém que tenha mais a ver com você, Denílson?!
- Não, enquanto estou com você, o que busco é estar com você, Regina. Inteiramente com você, plenamente com você, nesse momento. Uma relação não é um contrato com garantias de eternidade, é uma coisa viva, dinâmica, não vem embalada em formol ou em fórmulas. Se você está querendo garantias na vida, na verdade não está querendo a vida, meu bem! A única garantia é a morte!
- Não! Eu não aceito isso! Relação sem fidelidade pra mim não é relação!
- Confesso que essa idéia pra mim também é difícil, não consegui ainda deixar minha auto-importância de lado o suficiente pra alcançar essa que ao fim e ao cabo cheguei à conclusão que é a idéia mais elevada a res...
- Pára com esse papo idiota de idéia elevada a respeito de barará! De mais a mais, mesmo que eu estivesse aqui nesse planeta para correr atrás dessa merda, quem tem de escolher qual é a idéia mais elevada a respeito de mim mesma que eu consigo conceber sou eu, não é? Ou é você que é mais iluminado? E eu escolho que a idéia mais elevada a respeito de mim mesma inclui a exigência de fidelidade numa relação para que eu possa dizer que nela existe amor!
- Mas isso é empobrecer a relação, é fazer dela menos que suas possibilidades...
- Quem tem de escolher isso sou eu! Se isso faz de mim um ser mesquinho pouco evoluído espiritualmente diante de você, isso é o seu julgamento, e não o meu, e você não tem o direito de impor qualquer coisa que seja para mim!
Denílson ficou em silêncio, e foi murchando igual um balão. Por fim suspirou:
- Você tem razão. E na verdade, nessa história toda você está mais certa do que eu; age de acordo com aquilo que acredita. Eu acho muito bonitas essas idéias que prego, mas ainda não dou conta de viver de acordo com elas. Você é integral, Regina, enquanto que eu não passo de um esquizóide de personalidade cindida. Me lembro de quando resolvi te pedir em casamento... Estávamos naquele clube campestre, lembra? Eu estava sentado e você foi no balcão pegar uma cerveja, ia passando entre as mesas e todos os homens ficaram te secando com os olhos, babando por você. Eu fiquei louco de ciúme, e foi ali naquele momento que resolvi te pedir em casamento: pra garantir sua posse, pra que nenhum deles pudesse te roubar de mim...
Denílson começou a chorar copiosamente, não conseguia continuar a falar. Fui até ele e o abracei comovida: aquela confissão tinha sido a coisa mais bonita que eu já escutara em toda minha vida! A minha linda declaração de amor! Foi ali que encontrei o alento para continuar investindo em nossa relação. No momento ela podia não estar um mar de rosas, mas o essencial possuía: tinha começado pelos motivos certos! A tendência, portanto, era que no final tudo acabasse se ajeitando. Igual sempre acontece, ao som de violinos e sob fogos de artifício, no último capítulo de todas as novelas.

jogue sua esperança no lixo


Quando perguntados sobre qual seria a grande característica do povo brasileiro, boa parte dos políticos responde, com olhos brilhantes e um faiscante sorriso: “a esperança”.
Muitos governantes falam isso por uma mera questão de populismo, ou de ignorância. Já outros, mais versados nas tramas da linguagem, sabem que essa tão propalada esperança é no fundo a grande força motriz que permite que eles se mantenham no poder, dentre outras mazelas de que sofre nosso país.

Sim, pois a palavra “esperança” vem de esperar. Ou seja: ficar parado, inerte, esperando que alguém, político, papai ou Deus, tome uma providência – sendo que na própria Bíblia já estava escrito: “faça sua parte que Eu te ajudarei”.
É por ficarem ancorados na esperança que a maioria dos nossos barcos deixa de navegar o mar das possibilidades. É devido a ela que morrem na praia a maioria de nossos projetos e desejos. Ter esperança é querer ganhar na loteria e não fazer nem mesmo o esforço de comprar o bilhete. É botar a responsabilidade pela própria vida na mão dos outros, ao invés de trabalhar junto para as mudanças necessárias acontecerem.
Já houve um tempo em que se sabia que a esperança não era uma coisa lá tão benta assim. O mito grego da “Caixa de Pandora” (uma outra versão da maçã do pecado original cristão) conta que a curiosidade fez uma mulher abrir a caixa onde ficavam guardadas para nossa proteção todas as desgraças, permitindo a elas se espalharem pelo mundo. Aí, depois que o mal estava feito, quando por fim olharam dentro da caixa, adivinhem qual era o único diabinho que ainda restava ali? Bidu: a esperança, aguardando suspirante pela volta de tempos melhores, na mesma posição em que deve estar até hoje.
Mas afinal de contas, por que a esperança, sendo tão ruim assim, faz tanto sucesso? Porque responsabilizar-se pela própria vida dá preguiça, às vezes é chato, gasta tempo... Quem recebe esmola não trabalha; estamos sempre doidinhos querendo alguém para podermos encostar, e nos conformarmos com essa ilusão de movimento chamada inércia.
Então temos de ficar o tempo todo obsessivamente movimentando-nos para não cairmos nas armadilhas da esperança? Não, pois existe uma outra maneira de se estar quieto que é totalmente diferente dela, e muito mais interessante: a expectativa. Faz parte dela o “ativa”. É aquela ação feita por quem sabe que está realizando o que lhe cabe para que as coisas funcionem, e acompanha atento o tempo do trabalho dar frutos. A ação feita por quem, a cada dia, arranca o assassino louva-a-deus da esperança de dentro de si, e faz uma escolha pessoal e intransferível pelo movimento. Feita por quem veste a carapuça, bate no peito e diz: eu sou inteiramente responsável pelo modo como minha vida e o mundo estão hoje. E vai à luta para fazer a diferença.

Tuesday, November 21, 2006

inferno astral


Este blog de hoje é especialmente dedicado aos sagitarianos e capricornianos, como eu e Marisol, que passam pela fase de reavaliação do ciclo anual que se fecha agora com a aproximação da data de aniversário. Mas na verdade serve pra todo mundo, afinal, quem tá vivo eventualmente acaba fazendo aniversário - a não ser que seja uma dessas dondocas que juram de pé junto que pararam no tempo aos trinta e poucos anos.


INFERNO ASTRAL

Inferno astral é o sujeito mais chato da turma toda

que cada época do ano encosta em um

e lembra a gente daquilo tudo que deixou passar batido:

as vídeo-cassetadas em dolby e zoom.

Lembra que o passo que a gente andou serviu foi pra descobrir

mais um quilômetro novo a percorrer

Lembra que o maduro que a gente acha que está

se não mudar, já é um apodrecer.

Sua palavra de alento é dizer:

"Tá muito lento,

lento porque você não está atento".

E eu boto as mãos pelos pés,

os pés pelas mãos,

grito, choro, sangro, sofro

finjo que não é comigo

e no fim do mês tá tudo bem.

Inferno astral se vai,

acenando a mão...

Promete voltar ano que vem.

falando de amor(es)


Descascando até o cerne as falas do ser humano, o que todos estão dizendo o tempo todo é: “eu quero ser amado por você”. Lindo isso, né? Mas cabe aqui a pergunta: o que é que estão chamando de amor?

Para a grande maioria das pessoas, amor é uma reação a necessidades satisfeitas. Você me dá isso de que acredito precisar (segurança, afeto, poder, etc.), e em troca eu te dou o meu amor, ou aquilo que chamo de amor. Como numa transação comercial, e estando ambas as partes satisfeitas, tudo bem(?).

Talvez, entretanto, essa não seja a opção mais elevada que temos à disposição. Talvez o verdadeiro amor viceje em liberdade. Em não precisar, em perceber-se completo. Em descobrir que a pessoa amada não está ali para cumprir nenhuma função em nossa existência, nem nós na dela, e ainda assim permanecer juntos, construindo a relação. Apenas porque... é bom. Apenas por gostar de estar com o outro, compartilhando a vida.

É raro, muito raro que uma relação comece, ou se mantenha, baseada nesse motivo. Mas não quer dizer que por ter iniciado menos bonita do que poderia tenha que assim permanecer. Entra aí o esforço da consciência para mudar, fazendo como na frase de Chico Xavier: “embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo final”.

Monday, November 20, 2006

depois do confortável e antes do intolerável


Um dos mitos que cerca a prática da massagem é o de que ela precisa doer para ser efetiva. Este conceito provavelmente vem da cultura japonesa - que, convenhamos, é um tanto quanto carregada no tempero quando se trata de ser marcial. Se o paciente não sai todo roxo da sessão, será que o terapeuta pegou leve demais?
Particularmente, não concordo com isso. Afinal de contas, por mais metido a herói que o sujeito seja, a tendência geral é que a gente se contraia, retese a musculatura quando está sentindo dor. A coisa acaba sendo contraproducente, portanto, se a intenção é relaxar, soltar tensões. Mas tampouco acho que massagem deva ser apenas um mero cafunezinho.Acredito que a pressão terapêutica que tem mais eficácia se encontra no meio termo: um pouco além de um simples carinho, e um instante antes da tortura propriamente dita.
Esse, entretanto, é um ponto fluido, para o qual o terapeuta deve estar bastante atento durante a massagem: a dosagem adequada é uma coisa que varia muito de paciente para paciente, e mesmo num mesmo sujeito ainda muda bastante dependendo da parte do corpo que está sendo trabalhada e de como ele está no dia específico da sessão.
Mais uma vez, pode-se dizer que falamos aqui de estar atento, presente no que se está fazendo, para perceber os sinais de como melhor interagir com o mundo ao nosso redor. Aí está uma boa dica de como garantir manter-se em movimento produtivo na vida: buscar o caminho do meio, um instante depois da água morna do confortável, e um instante antes do peso abusivo do intolerável.

Tuesday, November 14, 2006

memórias de um acupunturista


Essa história aconteceu durante os meus anos de formação, na época em que fui estagiário de Luiz Carlos Melão, que considero um de meus mestres de acupuntura. Eu acompanhava o dia a dia de seus atendimentos, mantendo a sala em ordem e auxiliando no que me era solicitado, e anotava obsessivamente tudo que se passava no consultório.
O último paciente daquele dia veio caminhando com passos duros pelo corredor. O barulho que fazia deu a impressão que quem surgiria na porta seria alguém muito maior que o sujeito que finalmente apareceu; ainda assim, seu rosto muito vermelho e de cenho franzido dava-lhe um ar deveras intimidante. Parou do lado de fora, com os braços cruzados, olhando-nos com visível reprovação.
- Antes de mais nada – disse com voz de general comandando o batalhão – quero dizer que só estou aqui porque minha mulher, que já fez tratamento com você, insistiu muito pra que eu viesse, que talvez você pudesse me dar algum alívio de minha gastrite. Mas quero que fique bem claro que eu não acredito em você, não acredito no que você faz, e acho que você é um picareta.
- Não se preocupe – Melão respondeu, bonachão – acupuntura funciona em qualquer animal.
Pronto, agora vamos os dois apanhar aqui dentro, pensei.
O cara travou, de olhos arregalados, como se repentinamente tivesse engasgado com uma espinha de peixe durante a refeição. Ainda ficou ali, congelado, por um interminável instante. E então... Começou a rir. Convulsivamente, de chorar, como se alguém tivesse finalmente levantado a bailarina de uma panela de pressão que estivesse prestes a estourar após tempo demais no fogo. Ficou assim alguns instantes, e quase dava pra sentir a tensão no ar da sala se dissipando. Quando o ataque passou, ele sentou-se tão relaxado como nos sentamos junto a amigos que conhecemos à décadas na cadeira que Melão lhe ofereceu. A sessão foi ótima, e ele já saiu de lá se sentindo muito aliviado de seu desconforto gástrico.


- Pensei que ele fosse nos bater, quando você falou aquela história de acupuntura funcionar em qualquer animal – confessei para Melão depois que o homem tinha saído e estávamos fechando o consultório para ir embora.

Melão riu:

- É fundamental você compreender qual é a energia do paciente. Na hora que ele apareceu, e falou aquelas bobagens, percebi que só estava pedindo encarecidamente por um motivo pelo qual parar de fazer aquele esforço todo para fingir que não acreditava em acupuntura, a despeito de toda informação relativa à eficácia dela veiculada maciçamente na mídia hoje em dia. E também, é claro, para finalmente abrir mão daquela gastrite que tanto o estava incomodando. É bom que você se lembre: nada está mais próximo da conversão completa que a ojeriza absoluta... O que não quer dizer que, se eu o pegasse da maneira errada, não corrêssemos mesmo o risco de apanhar igual dois condenados aqui dentro desse consultório.

- Mas como é que você sabia que essa era a maneira correta de abordar esse cara pra desarmá-lo?

- Aí é que está o pulo do gato. Se você realmente está presente, atento, a resposta sempre está ali. Se você não tem uma fórmula pré-concebida de como deve tratar uma pessoa, se você não a observa com um pré-conceito, não a rotula ao invés de interagir com ela momento a momento, a resposta está lá. Estar presente deixa a caixa de ferramentas aberta à sua frente, com um repertório verdadeiramente infinito de possibilidades a seu alcance, e então tudo que você precisará fazer é olhar o parafuso pra saber qual chave de fenda será mais eficiente para atarrachá-lo.

- Isso me lembra um conceito interessante que li em um livro de ficção científica: “grocar”. O autor usou esse termo pra descrever uma habilidade que uma raça extraterrestre tinha de moldar-se de acordo com a pessoa com a qual estivesse interagindo. Como a água, que adapta sua forma ao recipiente que a contém.

- Sim, tem muito a ver. E que o parâmetro que norteia o seu moldar seja sempre o amor. Amor no sentido de fazer tudo que estiver ao seu alcance para ajudar o outro a se reinventar, a cada instante, de acordo com a nova idéia mais elevada a respeito de si mesmo que ele conseguir conceber.

cabeça cheia: isso sim é a morada do capeta!


Existe uma confusão comum quando se fala a respeito de fazer meditação. Muitas pessoas acreditam que meditar é sentar-se em posição de yoga, e ficar lá tentando parar o pensamento. Bem, pra começo de conversa é claro que essa estratégia está fadada ao fracasso: quem fica parado tentando não pensar, nada mais está fazendo que pensar "tenho de parar de pensar, tenho de parar de pensar." Caindo direitinho no jogo da mente, realimentando-a mais uma vez com a dieta de lixo da qual ela tanto gosta.

Na minha opinião, meditação não é uma busca de parar o pensamento, mas de desidentificar-se com ele. Parar de acreditar que as criações de nossas mentes são a realidade e nós mesmos. Diria que meditar é fortalecer o observador que há dentro de nós, para que tenhamos a possibilidade de estarmos realmente presentes em nossas vidas, agindo ao invés de reagir ao mundo ao nosso redor de um modo automático, baseado em situações passadas ou em projeções futuras, apenas muito vagamente semelhantes ao momento presente. Meditar é ver o Universo, com nós mesmos incluidos, claro, como o todo integrado e perfeito que ele é, o qual só essa máquina separatista que é a mente humana poderia disfarçar como algo diferente, fazendo como ela adora fazer: mutilando tudo em detalhes cada vez mais infinitesimais e desconectados. Meditação é a experiência de perceber-se como parte indissociável da mesma energia que compõe todo o Universo. Abrindo mão do ego, percebemos que nossa essência é o observador; e o observador é Deus.

Monday, November 13, 2006

entregar-se ao fluxo



Alan, um antigo amigo nosso, mudou-se recentemente aqui para Tiradentes, e está tocando, junto com sua companheira Patrícia, a simpática Pousada do Ó, no centro histórico de Tiradentes. Em uma de nossas conversas pra colocar o papo em dia, ele nos lembrou de uma história a respeito da época em que eu e minha esposa nos conhecemos.

Marisol estava dançando num forró itinerante em Ouro Preto, durante o festival de inverno de lá, em julho. Resolveu sair pra assistir um show na praça, mas pretendia voltar. Era Alan que estava na portaria (nesse tempo ele trabalhava como produtor de eventos), e ele disse que tudo bem, mas ela tinha de deixar sua carteira de identidade se quisesse voltar mais tarde. Marisol deixou o documento, e caiu na noite.

Depois que o show terminou, ela resolveu que a aventura já estava de bom tamanho, e decidiu ir embora para a república onde estava hospedada. Mas aí lembrou: “Xii... Minha carteira! Que saco, vou ter de voltar lá no forró!”Quando chegou na portaria, viu que a dança ainda estava animada no salão. Então pensou: “Ah, vou dançar só umazinha, pra compensar essa operação resgate de carteira, e aí vou embora. Deixa ver um que saiba dançar direitinho... Que tal aquele ali?”

Era eu. Foi como nos conhecemos, ano que vem faz nove anos que estamos casados. Por conta daquela carteira, nossas vidas mudaram totalmente. Podíamos nem mesmo ter nos conhecido - santa carteira! E isso me faz pensar: puxa, detalhes tão infinitesimais mudam tanto as trajetórias... Como é que a gente pode ter a pretensão de querer manter a vida sob controle? Não seria muito mais simples, com atenção e confiança, se entregar ao fluxo da existência e permitir alegremente que o milagre aconteça?

de doenças e pistas


Doença é uma coisa chata. O ideal é que a gente se livre dela sempre o mais rápido possível. Mas tão importante quanto isso, é entender afinal de contas o que ela vem a ser. Uma sacanagem do nosso corpo conosco? Um castigo de Deus? Embora seja muito mais cômodo pensar dessa forma, porque aí a gente se exime da responsabilidade pelo nosso padecimento, a resposta, é claro, não tem nada a ver com isso: adoecer é a maneira que nosso organismo tem de pedir por mudanças em nossa maneira de levar a vida.Antigamente, a humanidade sabia disso, então ficava atenta para ler as respostas que o corpo ia dando: comia algo e analisava, no curto, médio e longo prazo, como a digestão acontecia, se soava alguma espécie de alarme: Azia? Insônia? Irritação? O tempo todo o homem se observava e questionava: O que meu trabalho, físico e intelectual, provoca em mim? E minha maneira de me relacionar com o mundo ao meu redor e comigo mesmo? Que características herdei de meus pais que são positivas, e quais são aquelas que necessito contornar? Ah, os bons velhos tempos... Estávamos mais próximos da Natureza, e utilizávamos os movimentos dela para nortear os nossos. A gente tomava menos na cabeça naquela época.Mas hoje, infelizmente, perdemos muito dessa compreensão da doença como dica. Basta o corpo vir com algum sinal, que mais que depressa a gente o entope de remédios, sedando aquele sintoma - e ainda achando, na cara dura, que pronto, beleza, está tudo resolvido. Malandragem... Que faz o corpo, então? Diz baixinho: “Você não vai se safar assim tão fácil não, meu chapa”; e depois de um tempo, arruma uma doença mais séria, uma “somatização”, um “defeito colateral”... um jeito mais veemente de dizer que do jeito que está não dá.Mas não é por maldade, não. Nosso corpo não quer nos ferrar, ao adoecer. Você pode ter certeza que ele terá tentado de todas as formas remendar a situação antes de adotar essa medida mais extrema; afinal, ele pode até não saber se existe vida depois da morte, mas de uma coisa tem certeza: se morremos, ele vai pro buraco. O corpo quer é viver uma boa vida, desabrochar para nós todos os tesouros que tem para nos oferecer, e por isso nos dá a doença: para que prestemos atenção e vejamos onde é que estamos nos sabotando, e façamos as modificações necessárias em direção à saúde e ao bem estar.

não pire, respire


Para saber se a pessoa que acabamos de conhecer é ansiosa ou não, basta que observemos sua maneira de respirar. Uma pessoa ansiosa respira de maneira superficial, rápida, movimentando os ombros em espasmos curtos. Uma pessoa tranquila respira de maneira profunda, diafragmática, lenta.

Uma vez informada disso, uma pessoa ansiosa não poderia adotar o padrão respiratório de alguém calmo para nos enganar quanto a seu real estado de espírito? Poderia até começar a fazê-lo com essa intenção, mas assim que passasse um tempo respirando profundamente pelo abdomen, perceberia que esse exercício teve a propriedade, sim, de acalmar suas emoções, estando ele apegado ou não a sua ansiedade. Como na antiga técnica do sorriso focalizado: é impossível uma pessoa permanecer triste se mantém um sorriso no rosto, mesmo que meio forçado, por mais de quinze minutos. Note bem: estou falando de sorriso meio forçado, não de careta-vagamente-parecida-com-um-sorriso! Pra completar essa técnica, vale imaginar que o coração está rindo junto com a boca. Isso, meio ridículo mesmo, igual aqueles coraçõezinhos de desenho animado. Repare como o estado de espírito já começa quase que imediatamente a mudar!

Voltando na respiração, vale lembrar que respiração diafragmaática é mais que respiração abdominal. Esse é um engano comum, mas pode ser um bom começo: respire pela barriga, até ela ficar completamente inchada de ar. Então repare: inchou para frente, mas você sabia que para os lados também pode crescer? Na verdade, o diafragma é como um guarda chuva que temos na cintura. Encher-se de ar, diafragmaticamente falando, é como abrir esse guarda chuva. No começo costuma ser meio difícil, afinal estaremos lidando com músculos que faz tempo que provavelmente largamos de lado, tensos e atrofiados. O lance é ir trabalhando com empenho, tomando consciência dessa região, nos corrigindo sempre que nos pegamos respirando errado, até que um belo dia percebemos que automatizamos o processo. Meio como andar de bicicleta: depois que o corpo aprende não esquece mais. Alcançamos uma maior base de manobra, e fica mais difícil a gente perder o equilíbrio por qualquer brisa besta que passa por nós.